A Starlink dá lucro, os contratos de defesa dão lucro, e ainda assim a empresa que estreia na Nasdaq fechou 2025 no vermelho. Entender de onde vem o buraco é o que separa quem compra a empresa de quem compra a narrativa.
US$ 75 BILHÕES DE CAPTAÇÃO, US$ 5 BILHÕES DE PREJUÍZO
A SpaceX estreia na Nasdaq em 12 de junho sob o ticker SPCX, e a cifra que acompanha a abertura não tem precedente. A captação pode chegar a US$ 75 bilhões, cerca de duas vezes e meia o recorde anterior, fixado pela Saudi Aramco em 2019. A avaliação proposta varia entre US$ 1,75 trilhão e US$ 2 trilhões. No mesmo conjunto de números que sustenta a oferta aparece um prejuízo líquido consolidado de US$ 4,94 bilhões em 2025.
Para o investidor de alto patrimônio que recebe a chamada com 30% das ações reservadas ao varejo, a pergunta que importa é o que justifica pagar por uma empresa deficitária a maior conta já apresentada a um mercado público. A justificativa mora na forma como três negócios muito diferentes foram empacotados dentro da mesma ação, e o foguete é o menos relevante deles.
DE US$ 800 BILHÕES A US$ 2 TRILHÕES EM SEIS MESES
No fim de 2025, uma venda secundária de ações precificou a SpaceX em US$ 800 bilhões, ao valor de US$ 421 por papel. Em fevereiro de 2026, a fusão integral com a xAI, a empresa de inteligência artificial de Elon Musk que já controlava a plataforma X, foi avaliada em US$ 1,25 trilhão. Quatro meses depois, a faixa proposta para o IPO alcança US$ 2 trilhões. O patrimônio de quem entrou na rodada secundária mais que dobrou no papel em menos de um ano.
A SpaceX consolidou a xAI para financiar uma aposta de infraestrutura de inteligência artificial que inclui, no discurso do fundador, data centers em órbita. O investidor com patrimônio acima de R$ 1 milhão que olha para a curva de avaliação precisa entender que parte relevante dela já precifica uma promessa ainda sem prova técnica ou regulatória.
ONDE ENTRA O CAIXA E ONDE ELE QUEIMA
A Starlink, o negócio de internet via satélite, gerou US$ 11,4 bilhões de receita em 2025 e US$ 4,42 bilhões de lucro operacional, com mais de 10 milhões de assinantes ultrapassados em fevereiro de 2026. O segmento de lançamentos, que ergueu 165 voos orbitais no ano, somou outros US$ 4,1 bilhões e ancora US$ 22 bilhões em contratos federais acumulados com NASA, Pentágono e Força Espacial.
A xAI queimou US$ 14 bilhões em caixa no mesmo ano, e foi essa conta que transformou um negócio lucrativo de forma isolada em um balanço consolidado no vermelho. Do investimento total de US$ 20,7 bilhões em capital no ano, US$ 12,7 bilhões foram para infraestrutura de inteligência artificial. O investidor de alto patrimônio encontra aqui o desconforto central da oferta, com a parte do conglomerado que comprova geração de caixa pagando a conta da parte que ainda consome capital em ritmo bilionário.
A CONTA QUE DAMODARAN FEZ
Aswath Damodaran, professor de finanças da NYU e uma das maiores referências mundiais em avaliação de empresas, estimou o valor justo da SpaceX em US$ 1,22 trilhão usando fluxo de caixa descontado, com receita futura projetada em até US$ 320 bilhões. A faixa baixa do IPO, US$ 1,75 trilhão, já embute um prêmio de cerca de 43% sobre essa conta. A ação chega ao mercado a 266 vezes o EBITDA gerado em 2025, um patamar que deixa empresas como Meta, Alphabet e Nvidia, negociadas em múltiplos de uma a duas dezenas, parecendo modestas em comparação.
Pela regra de entrada acelerada da Nasdaq, a SPCX pode integrar o Nasdaq-100 em poucos pregões, o que força fundos indexados a comprarem entre US$ 8 bilhões e US$ 12 bilhões do papel nas primeiras duas semanas, independentemente do que o múltiplo diga. Quem carrega ETFs de índice americano vai herdar exposição à SpaceX sem nunca ter tomado essa decisão de forma ativa.
O PODER QUE VEM DENTRO DA AÇÃO
A estrutura proposta dá a Elon Musk até 83,8% do poder de voto com cerca de 42% do capital, sustentada por ações Classe B que valem 10 votos cada, e a remoção do CEO exigiria o consentimento do próprio CEO. A empresa ainda adotou a legislação societária do Texas, que impõe posse mínima de 3% das ações para que um acionista possa processar o conselho, e cláusulas de arbitragem obrigatória que afastam ações coletivas.
Três fundos de pensão com mais de US$ 1 trilhão sob gestão, liderados pelos controladores de Nova York e pela CalPERS, assinaram uma carta aberta contra o desenho que qualquer investidor de alto patrimônio herda ao comprar o papel.
"A estrutura de governança proposta constituiria o arranjo mais favorável à administração já trazido aos mercados públicos dos Estados Unidos nessa escala." – Carta dos controladores Mark Levine e Thomas DiNapoli e da CEO da CalPERS, Marcie Frost
Para um investidor com R$ 5 milhões em ativos financeiros, referência comum no público de alto patrimônio, a leitura prática é dura. Mesmo mobilizando capital relevante, o peso do voto é estatisticamente anulado, e o caminho para questionar o conselho na Justiça fica quase intransponível. Se a sua tese para entrar é a admiração pelo fundador, esse conjunto de regras pede uma segunda conversa antes da ordem de compra.
O QUE MUDA PARA QUEM ALOCA COM CRITÉRIO
Reservar 30% das ações ao varejo, fatia incomum em estreias desse porte, transforma a admiração pelo fundador em demanda na largada. O risco para o investidor de alto patrimônio é confundir a vontade de participar de um marco histórico com a decisão de alocar capital em um ativo que custa 266 vezes o resultado que entrega hoje.
"A SpaceX pode ser um dos IPOs mais divisivos em uma década. Investidores institucionais vão pressionar Musk a definir seu foco. Gerir duas empresas trilionárias de capital aberto ao mesmo tempo é um desafio de governança que vai dominar o roadshow." – Dan Coatsworth, head de mercados da AJ Bell
Os 180 dias de lockup, que travam a venda de ações de fundadores e fundos de venture capital, terminam por volta de dezembro de 2026. Quando esse volume puder ser vendido, a pressão sobre o preço tende a ser concreta para quem ficou comprado desde a estreia. O investidor de alto patrimônio que pensa em entrar no IPO precisa decidir antes se está disposto a atravessar essa janela, e não descobrir o prazo depois de já estar posicionado.
VOCÊ COMPRA A EMPRESA OU A NARRATIVA?
A Starlink é um negócio comprovado, os contratos de defesa são caixa contratado, e há uma das empresas mais admiradas do planeta por trás da oferta. Tudo isso convive com um prejuízo de quase US$ 5 bilhões, um múltiplo de 266 vezes o resultado e um estatuto que concentra o poder de decisão em uma pessoa. Para quem administra patrimônio relevante, a pergunta é se o preço de estreia paga pela empresa que já dá lucro ou pela promessa que ainda queima caixa.
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