A infraestrutura mais avançada de inteligência artificial do planeta depende do mesmo metal que Thomas Edison enfiou sob as ruas de Nova York em 1882, e ele está acabando.
A CORRIDA QUE A IA NÃO PODE GANHAR SEM COBRE
A narrativa em torno da inteligência artificial vende um produto sem peso, feito de modelos, parâmetros e tokens. O que sustenta esse produto no chão é outra coisa. Um rack de servidores dedicado a treinar modelos de IA consome entre 100 e 1.000 quilowatts, contra 5 a 15 quilowatts de um rack tradicional. Esse aumento de calor exige refrigeração líquida, e refrigeração líquida em escala industrial é feita com placas e tubulações de cobre. Cada campus de IA de 50 a 150 megawatts consome entre 27 e 33 toneladas de cobre por megawatt instalado. Para o investidor com patrimônio acima de R$ 5 milhões que carrega posição em big techs ou em fundos de infraestrutura digital, essa conta física é tão relevante quanto a conta de capex divulgada em balanço.
O cobre que conecta cada GPU à rede elétrica é o mesmo que abastece a fiação de qualquer prédio residencial. O mercado debate múltiplos de semicondutores todos os trimestres, mas mede o cobre com muito menos atenção do que o insumo merece dado o volume que a expansão de data centers já consome.
O GARGALO QUE NINGUÉM CONSTRUIU A TEMPO
A demanda global de cobre deve subir de 28 milhões de toneladas em 2025 para 42 milhões de toneladas em 2040, uma alta de 50%, segundo estudo da S&P Global. A produção global de cobre, mesmo somando os novos projetos ainda em análise, segue trajetória oposta, já que o pico projetado é de 33 milhões de toneladas por volta de 2030, e depois disso a curva declina; olhando só as minas já em operação hoje, sem nenhum projeto novo, esse pico cai para 27 milhões de toneladas na mesma data. O teor médio de cobre extraído por tonelada de rocha na América do Sul caiu 44% desde o ano 2000, de 1,3% para 0,7%, o que obriga cada mina a mover mais material para entregar o mesmo volume de metal.
Abrir uma mina nova não resolve o problema no curto prazo. O intervalo médio entre a descoberta de um depósito e o início da produção comercial é de 17 anos, somando licenciamento ambiental, disputas judiciais e construção. Projetos como o Resolution Copper, no Arizona, seguem travados por litígios com comunidades indígenas, e a Cobre Panamá, onde a First Quantum investiu US\$ 11 bilhões, está paralisada desde 2023 por decisão de inconstitucionalidade. A soma dessas travas projeta um déficit estrutural de 10 milhões de toneladas até 2040, o equivalente a um quarto da demanda esperada. Esse número, e não o preço do cobre em qualquer pregão específico, é o que deveria pautar a posição de longo prazo de uma família com patrimônio relevante em mineradoras ou em fundos de matérias-primas.
“O cobre é a artéria conectiva que liga maquinário físico, inteligência digital, mobilidade, infraestrutura, comunicação e sistemas de segurança; a disponibilidade futura de cobre se tornou uma questão de importância estratégica” – Carlos Pascual, Senior Vice President de Geopolítica e Assuntos Internacionais da S&P Global Energy.
AS BIG TECHS ENTRARAM DIRETO NA MINA
A Amazon fechou com a Rio Tinto um contrato de dois anos para 30.000 toneladas de cobre da mina Johnson Camp, no Arizona, das quais 14.000 toneladas virão ao longo de quatro anos da tecnologia de lixiviação de baixo carbono Nuton, e o restante de processos convencionais de lixiviação. É a primeira compra de cobre minerado em solo americano feita pela empresa em uma década, e o movimento sinaliza que a AWS trata o cobre como insumo estratégico de longo prazo para seus data centers de IA.
Esse tipo de verticalização, de uma empresa de tecnologia negociando direto com uma mineradora, é raro fora dos setores de energia e siderurgia. Quem acompanha as big techs pelo múltiplo de software e ignora esse acordo perde o sinal de que o custo de insumo físico entrou na equação de risco dessas empresas, com potencial de pressionar margem se o preço do cobre continuar subindo. A cotação na Bolsa de Metais de Londres saiu de cerca de US\$ 8.500 por tonelada em 2023 para US\$ 11.500 em dezembro de 2025.
A APOSTA NA LUZ QUE AINDA NÃO CHEGOU
A indústria de semicondutores conhece a saída teórica para o problema, que é substituir a fiação elétrica por óptica coempacotada, tecnologia que usa luz ao invés de eletricidade para conectar chips em alta velocidade. A NVIDIA antecipou seu roadmap em cinco anos e promete incorporar essa tecnologia diretamente em suas GPUs Feynman a partir de 2028. É uma correção de rota importante, porque o sinal elétrico se degrada rapidamente em conexões de cobre acima de um a dois metros, um limite físico que a escala dos data centers de IA já esbarra.
O problema é o ritmo efetivo dessa transição fora dos comunicados de imprensa. A Bernstein e a consultoria 650 Group projetam que o cobre continuará dominante nas redes scale-up, que interconectam GPUs dentro do mesmo rack, até a virada de 2031 para 2032, quando a óptica coempacotada passa a ganhar participação de forma mais acentuada; o cobre tradicional ainda segue presente nessas redes, em volume menor, até perto de 2035. A participação da óptica coempacotada no volume total de módulos ópticos de IA deve subir de 0,5% em 2026 para cerca de 35% em 2030, um ganho expressivo em termos relativos, mas ainda distante de substituir o volume físico de cobre que a indústria consome hoje.

Fonte: Bernstein e 650 Group.
Numa tese de longo prazo em semicondutores, a diferença entre a tecnologia existir em laboratório e a tecnologia substituir o incumbente em escala costuma valer alguns anos de retorno para quem tem patrimônio alocado no setor.
O RISCO DE PAGAR CARO NA HORA ERRADA
O ETF Global X Copper Miners (COPX), o principal veículo de exposição líquida a mineradoras de cobre, custava em agosto de 2026 um EV/EBITDA de 8,0 vezes e um P/E projetado de 15,7 vezes, segundo dados da Koyfin, próximo do topo da faixa histórica observada entre 2017 e 2026.

Fonte: Koyfin.
Quem entra agora comprando a narrativa do déficit corre o risco de pagar o pico de um ciclo de re-rating que já aconteceu, ao invés de captar a valorização futura.
A tese do déficit físico deixa de fora um segundo ponto. A mineração e o refino do cobre respondem a lógicas diferentes, e a China concentra 40% da capacidade global de fundição, além de 66% das importações mundiais de concentrado em 2024, segundo a S&P Global.
Construir capacidade de refino fora da China exige capital pesado num negócio de margens historicamente espremidas, porque as tarifas de processamento pagas às fundições vêm caindo a níveis negativos em vários contratos recentes. Uma nova mina fora da China ainda deixaria o gargalo de processamento intacto, e qualquer investimento ocidental nesse elo da cadeia carrega risco de retorno mais baixo do que a mineração pura. Para a família com patrimônio relevante que avalia essa cadeia completa, o refino é o ponto onde a tese de escassez fica mais frágil.
“O equilíbrio está muito desafiado” – Katie Jackson, CEO da divisão de Cobre da Rio Tinto, ao descrever o equilíbrio entre oferta e demanda do cobre.
A decisão de timing pesa tanto quanto a convicção na tese para a família com patrimônio relevante que pondera entrar em mineradoras de cobre. Comprar um ativo cíclico no topo do múltiplo histórico é diferente de comprar a mesma tese num ponto de entrada mais barato, mesmo quando os fundamentos de longo prazo apontam na mesma direção.
SEU PORTFÓLIO JÁ PRECIFICA ESSA TRANSIÇÃO?
O déficit de cobre vem de minas que levam 17 anos para abrir, de um teor de minério que cai desde o ano 2000 e de uma demanda de inteligência artificial que cresce mais rápido do que qualquer um desses dois fatores consegue reagir. A óptica coempacotada só deve superar o cobre nas redes scale-up perto de 2032, e até lá o cobre continua sendo o insumo que decide se um data center liga ou não.
Para a família com patrimônio relevante em big techs, em semicondutores ou em fundos de infraestrutura digital, essa carteira já está exposta a esse gargalo, mesmo sem uma linha específica de mineradoras. A pergunta é se essa exposição foi calculada ou apenas herdada.
Se você busca ajuda de um time qualificado e independente para te guiar nesses movimentos de mercado, entre em contato com a Zanella Wealth: zanellawealth.com.br/contato/





