26 FUNDOS NA CARTEIRA E O RETORNO FOI MEDÍOCRE

Uma carteira com 26 fundos custou 10 vezes mais em taxas e entregou retorno de mercado. Para patrimônios acima de R$ 1 milhão, menos costuma ser mais.

Uma carteira cheia de produtos pode custar 10 vezes mais do que uma alocação simples para entregar, ao final, o mesmo retorno do índice.

A CARTEIRA QUE PARECIA SOFISTICADA

Um investidor com patrimônio acima de R$ 5 milhões recebe o relatório consolidado da carteira. São 26 fundos entre ETFs e fundos de gestão ativa, distribuídos entre ações, renda fixa e alternativos. A taxa média de administração ponderada chega a 0,529% ao ano, segundo análise da consultoria EnoughFP. Um portfólio de três fundos indexados amplos, cobrindo as mesmas classes de ativos, custaria menos de 0,05% ao ano. A diferença supera 10 vezes.

Das 10 menores posições dessa carteira, cada uma representa pouco mais de 1% do patrimônio total, conforme a mesma análise. Se um desses fundos superar o mercado por 20% num ano excepcional, a contribuição líquida para o portfólio será de 0,2%. Para um patrimônio de R$ 5 milhões, essa contribuição equivale a R$ 10 mil, um valor que desaparece diante dos custos acumulados pela fragmentação. A multiplicação de produtos cria uma aparência de diversificação sem entregar proteção adicional mensurável.

QUANTO A COMPLEXIDADE CUSTA NA PRÁTICA

A indústria de hedge funds cobra, em média, a estrutura conhecida como “2 e 20”: 2% de taxa de administração anual mais 20% de performance. Para investidores com patrimônio acima de R$ 10 milhões que alocam parcela significativa nesses veículos, o custo composto ao longo de uma década é substancial. Na última década, hedge funds entregaram um retorno médio anualizado de 4,956%, enquanto o S&P 500 acumulou 14,4% ao ano, de acordo com dados compilados pelo American Enterprise Institute. Entre 2008 e 2017, um fundo indexado ao S&P 500 rendeu 126%, enquanto uma cesta de hedge funds selecionados acumulou 37%, conforme relatório da Berkshire Hathaway.

Os custos de transação adicionam outra camada de perda. Segundo estudo publicado pela Frontiers in Applied Mathematics and Statistics em 2025, custos de transação reduzem retornos de portfólios em 0,5% a 2% ao ano, dependendo da frequência de rebalanceamento. Um levantamento da Long Angle de 2026 identificou que investidores com patrimônio entre US$ 2 milhões e US$ 10 milhões pagam cerca de 0,8% ao ano apenas em taxas de advisory. Somadas às taxas dos fundos e aos custos de transação, o custo total de uma carteira complexa pode ultrapassar 2% ao ano para famílias com patrimônio relevante.

A pesquisadora Indira Puri, professora de finanças da NYU Stern, publicou em abril de 2025 no Journal of Finance um estudo que documenta o custo comportamental da complexidade. Em experimentos controlados, participantes cometeram erros de decisão 7 vezes mais em cenários complexos do que em cenários simples, mesmo quando os resultados estatísticos das opções eram idênticos. A complexidade fez os participantes exigirem um prêmio de risco maior para tomar a mesma decisão, pagando pela simplicidade sem perceber.

O estudo rendeu a Puri o primeiro Rick Green Prize da American Finance Association. Para investidores com patrimônio acima de R$ 2 milhões, esse viés comportamental aparece como resistência a simplificar uma carteira que parece sofisticada, mesmo quando os números mostram que a sofisticação está custando retorno.

89% DOS GESTORES PERDEM DO ÍNDICE EM 15 ANOS

O SPIVA Scorecard de 2024, publicado pela S&P Global, registrou que 89,5% dos fundos de ações americanos de grande capitalização perderam do S&P 500 no período de 15 anos encerrado em dezembro de 2024. Nenhuma das 22 categorias de fundos de ações analisadas registrou maioria de gestores ativos superando seus benchmarks nesse horizonte. Mesmo no curto prazo, a taxa de insucesso é alta: 65% dos fundos large-cap ficaram atrás do índice em apenas um ano, segundo o mesmo relatório.

Um artigo anterior desta série mostrou que, em 10 anos, 88% dos fundos ativos brasileiros perderam para o benchmark. O padrão se repete em qualquer mercado. Um patrimônio de R$ 5 milhões distribuído entre 15 fundos ativos tem, estatisticamente, entre 13 e 14 deles destinados a ficar atrás de um ETF de índice que cobra uma fração do custo. Cada fundo adicional na carteira aumenta a probabilidade de o portfólio convergir para o retorno de mercado, com custos significativamente maiores.

A Charles Schwab, em sua pesquisa Modern Wealth Survey de 2025, reportou que 57% dos americanos consideram que os portfólios modernos são complexos demais para gerenciar sozinhos. Outros 42% concordam que a alocação tradicional 60/40 está ultrapassada, e 61% dos investidores mantêm múltiplas carteiras em instituições diferentes, segundo a mesma pesquisa. Para famílias com patrimônio distribuído entre bancos, corretoras e gestoras, essa fragmentação dificulta a avaliação da exposição real e a otimização tributária.

O FUNDO DE US$ 1,7 TRILHÃO QUE FUNCIONA COM 0,05% DE CUSTO

O Government Pension Fund Global da Noruega, maior fundo soberano do mundo, administra mais de US$ 1,7 trilhão investidos em 8.659 empresas listadas globalmente, segundo o relatório anual de 2024 do NBIM. O custo de gestão é de 0,05% sobre o patrimônio. Em 2024, o retorno total foi de 13,1%. A estrutura é simples: aproximadamente 70% em ações, 30% em renda fixa, com diversificação geográfica ampla e rebalanceamento disciplinado.

Warren Buffett endossa a mesma lógica para sua própria família. Na carta aos acionistas da Berkshire Hathaway de 2013, ele instruiu os gestores do trust de sua esposa a investir 90% em um fundo indexado de baixo custo ao S&P 500 e 10% em títulos de curto prazo do governo americano. Para o investidor de alto patrimônio que tem acesso a qualquer estratégia do mercado, a escolha de Buffett por dois instrumentos revela quanto ele atribui à sofisticação das alternativas.

Peter Lynch, gestor do Fidelity Magellan Fund, cunhou o termo “diworsification” para descrever o efeito de adicionar posições além do ponto em que a diversificação agrega benefício. Pesquisas acadêmicas sustentam o conceito: a partir de 20 a 30 posições, a redução incremental de risco por posição adicional é desprezível. Para famílias com patrimônio acima de R$ 5 milhões, a tentação de acrescentar um fundo a cada reunião com o gestor resulta, ao longo de anos, numa carteira que replica o mercado a múltiplos do custo de um ETF.

MAS HÁ MOMENTOS EM QUE MAIS PRODUTOS FAZEM SENTIDO

Os investidores com patrimônio acima de R$ 10 milhões frequentemente exigem estruturas que um portfólio de três fundos indexados não consegue entregar. Planejamento sucessório, proteção patrimonial, exposição a ativos com perfil de retorno descorrelacionado dos mercados públicos e necessidades específicas de liquidez são demandas que justificam camadas adicionais.

Segundo o estudo de alocação da Long Angle de 2026, 94% dos investidores com alto patrimônio líquido mantêm exposição a ativos privados e alternativos. Na faixa acima de US$ 25 milhões, essa exposição chega a 34% da carteira. Private equity, crédito privado e imóveis de investimento cumprem funções específicas de diversificação que instrumentos públicos simples não replicam. A simplificação excessiva pode sacrificar retornos ajustados ao risco quando o patrimônio justifica acesso a mercados com barreiras de entrada elevadas.

A multiplicação de produtos sem propósito definido é o que degrada retornos líquidos. Seis fundos de ações large-cap americanas na mesma carteira ocupam espaço, geram custo e diluem qualquer vantagem que um deles possa oferecer.

SUA CARTEIRA FOI DESENHADA PARA GERAR RESULTADO OU PARA PARECER SOFISTICADA?

Uma carteira com 26 fundos e uma com 3 podem entregar o mesmo retorno bruto. A diferença está nos custos acumulados ao longo de décadas, e para patrimônios acima de R$ 1 milhão, essa diferença se mede em centenas de milhares de reais.

A pergunta que precede qualquer adição de produto à carteira é se ele cumpre uma função que nenhum dos instrumentos existentes já cobre. Se a resposta exige mais de 30 segundos de reflexão, o produto provavelmente duplica uma exposição que o portfólio já tem.

Quantos dos fundos na sua carteira você consegue justificar em uma frase?

Se você busca ajuda de um time qualificado e independente para te guiar nesses movimentos de mercado, entre em contato com a Zanella Wealth: zanellawealth.com.br/contato/

Renan Zanella, CFA
Renan Zanella, CFA
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