Carta Mensal – Relatório de Alocação Agosto 2026

Escassez do ouro, das moedas fiduciárias e do Bitcoin, e o raio-X dos valuations das maiores empresas de IA depois do IPO da SpaceX.

Bitcoin e escassez digital: o novo papel do dinheiro na era da energia

Todo patrimônio representa trabalho acumulado, capital colocado em risco, tempo dedicado à produção e recursos que deixaram de ser consumidos no presente. A ideia de que “dinheiro é energia” funciona, nesse sentido, como uma metáfora econômica. Parte da produção de hoje deixa de ser consumida justamente para preservar consumo, investimento e escolhas no futuro.

Nesta carta compararemos o ouro, as moedas fiduciárias e o Bitcoin sob uma pergunta comum. Quanto do poder econômico acumulado hoje conseguirá atravessar décadas e permanecer disponível no futuro?

O ouro e a escassez física

O ouro conquistou relevância monetária porque reúne características difíceis de encontrar simultaneamente. É durável, divisível, relativamente escasso e concentra grande quantidade de valor em pouco volume.

Segundo o World Gold Council, aproximadamente 220,7 mil toneladas haviam sido extraídas ao longo da história até o final de 2025. Esse estoque estava avaliado em cerca de US$31 trilhões, com 17% nas mãos de bancos centrais e outras instituições oficiais.

Pelo lado da oferta, o estoque de ouro cresce lentamente. Em 2025, as mineradoras extraíram 3.672 toneladas, enquanto o primeiro semestre de 2026 acrescentou 1.867 toneladas ao mercado. O gráfico abaixo compara o crescimento anual da oferta de ouro com a emissão de Bitcoin.

Oferta de ouro contra emissao de Bitcoin, crescimento anual da oferta

Essa característica do ouro ajuda a explicar a função histórica como reserva de valor, embora sua escassez responda aos incentivos econômicos. Preços elevados aumentam a atratividade de novos projetos de mineração e permitem que depósitos, antes pouco rentáveis, sejam considerados para extração.

Grandes posições exigem armazenamento, segurança, auditoria, transporte e seguro. Os bancos, os cofres especializados, os fundos e os ETFs assumem essas responsabilidades, e o investidor passa a depender da infraestrutura de custódia.

Já do lado da demanda, a procura institucional segue elevada, com os bancos centrais comprando 289 toneladas líquidas no segundo trimestre de 2026, 62% acima do mesmo período de 2025, segundo o World Gold Council.

A flexibilidade das moedas fiduciárias

O desenvolvimento do dinheiro fiduciário reduziu boa parte dessas limitações físicas.

Os saldos bancários podem ser transferidos rapidamente, o crédito financia empresas e governos em grande escala, e os mercados financeiros processam um volume econômico que seria inviável por meio da movimentação física de ouro.

Falando em montante financeiro,nos Estados Unidos, o agregado monetário M2 passou de US$15,4 trilhões em janeiro de 2020 para US$23,2 trilhões em julho de 2026, um aumento próximo de 50%.

M2 dos EUA contra inflacao, base janeiro de 2020 igual a 100

A expansão monetária não tem relação mecânica de um para um com a inflação, já que o crédito, a produtividade, a política fiscal, a velocidade de circulação e a oferta de bens também influenciam os preços. Ainda assim, o dado demonstra a capacidade do sistema fiduciário de ampliar sua quantidade de moeda conforme decisões econômicas e políticas.

Para quem investe ao longo de décadas, essa característica exige atenção. Um patrimônio mantido integralmente em moeda precisa gerar retorno suficiente para compensar a perda acumulada de poder de compra.

É justamente por isso que investidores destinam capital para títulos de renda fixa, empresas, imóveis, commodities e outras classes capazes de preservar ou ampliar seu poder de compra no longo prazo.

O Bitcoin e a escassez digital

O Bitcoin acrescentou uma alternativa a essa discussão, ao criar um bem digital cuja oferta finita, conhecida e auditável.

A recompensa inicial dos mineradores era de 50 BTC por bloco. A cada 210 mil blocos, ou perto de quatro anos, essa emissão é reduzida pela metade. O protocolo estabelece um limite nominal de 21 milhões de bitcoins.

Oferta acumulada de Bitcoin contra o limite nominal de 21 milhoes

Um aumento prolongado no preço do ouro incentiva investimentos que ampliam a oferta futura. Porém, no caso do Bitcoin, preços mais altos atraem mineradores, equipamentos e capital, mas a quantidade emitida continua seguindo as regras previstas no protocolo.

O Bitcoin permanece sensível à liquidez global, à regulação, ao comportamento dos investidores e às mudanças de percepção. Sua volatilidade continua sendo uma das principais variáveis a considerar em qualquer decisão de alocação.

Por que o Bitcoin consome energia

A prova de trabalho (Proof of Work) conecta a rede digital a um custo econômico fora do software.

Os mineradores mantêm equipamentos especializados e consomem eletricidade para competir pela inclusão de novos blocos. Alterar registros antigos exigiria recomputar o trabalho acumulado e competir com a capacidade dos demais participantes.

A Cambridge Judge Business School estimou o consumo anual da mineração de Bitcoin em aproximadamente 138 TWh, perto de 0,5% do consumo mundial de eletricidade. A mesma pesquisa estimou que 52,4% da eletricidade declarada pelos mineradores pesquisados vinha de fontes classificadas como sustentáveis, considerando as renováveis e a energia nuclear.

Consumo energetico anual da mineracao de Bitcoin em TWh

O impacto ambiental depende da matriz energética utilizada, da localização da mineração e da eficiência dos equipamentos. Ao mesmo tempo, o consumo financia o mecanismo que protege o histórico das transações e torna economicamente custosa uma tentativa de reorganização da blockchain.

A mineração também tem uma característica relevante para determinados sistemas elétricos. Os equipamentos reduzem rapidamente o consumo quando a eletricidade fica cara ou quando a rede precisa liberar capacidade, o que permite sua participação como carga flexível em alguns mercados de energia.

A institucionalização mudou o acesso ao Bitcoin

O Bitcoin permite que o próprio titular controle suas chaves privadas e movimente recursos diretamente na rede. Essa autonomia transfere também a responsabilidade pela segurança.

Perder uma chave, armazenar incorretamente uma seed phrase ou estruturar mal o planejamento sucessório resulta em perda permanente do patrimônio.

Grande parte dos investidores institucionais prefere transferir essa responsabilidade para um custodiante especializado, e o crescimento dos ETFs mostra a força dessa demanda. Em 28 de agosto de 2026, o iShares Bitcoin Trust, administrado pela BlackRock, possuía aproximadamente US$60 bilhões em ativos líquidos.

As empresas também incorporaram o Bitcoin ao balanço, de modo que, em agosto de 2026, a Strategy declarava possuir mais de 840 mil BTC, 4% do estoque máximo futuro de 21 milhões de unidades.

Adocao institucional do Bitcoin, ativos do IBIT e reserva da Strategy

O Bitcoin em autocustódia, o Bitcoin dentro de um ETF e as ações de uma empresa altamente exposta ao ativo carregam riscos diferentes.

Onde o Bitcoin entra em uma carteira de investimentos

O Bitcoin tem menos de duas décadas de histórico, quando comparado aos séculos do ouro e à infraestrutura jurídica das moedas fiduciárias. A rede provou sua resiliência tecnológica, ao ter continuado produzindo blocos normalmente mesmo durante quedas de preço superiores a 70% e falências de grandes corretoras.

A decisão de incluir o Bitcoin na carteira exige avaliar fatores práticos como a custódia, a tributação, a liquidez e a capacidade do investidor de absorver a volatilidade.

Para preservar o poder de compra de um portfólio por décadas, o investidor precisa lidar com os riscos específicos de cada alternativa. A alocação em moeda fiduciária obriga o titular a administrar a inflação e o reinvestimento constantes. O ouro físico demanda logística e segurança próprias, ao passo que o Bitcoin em autocustódia requer planejamento sucessório e proteção rigorosa das chaves. O uso de ETFs de Bitcoin reduz essa complexidade técnica, mas insere as taxas e o risco jurídico de um terceiro.

Dentro de uma carteira global, o Bitcoin acrescenta uma forma de escassez digital com política de emissão previsível. A propriedade do Bitcoin pode ser transferida globalmente e a rede funciona de maneira independente, sem um emissor central. O ouro, o dinheiro fiduciário e os ativos produtivos oferecem mecanismos distintos para transportar riqueza ao longo do tempo.

Raio-X da IA: quanto vale uma receita que ainda não virou caixa

“Toda vez que você vir a palavra EBITDA, substitua por ‘lucro de mentira’.” Frase comumente atribuída a Charlie Munger.

No mês passado abrimos a cadeia de IA em camadas e ficou faltando a peça mais “cara” de todas (com perdão do trocadilho). Quanto valem, afinal, as empresas que estão no topo dessa cadeia, e de onde sai o número que sustenta esse valor?

Quando um jornal escreve que OpenAI e Anthropic somam mais de US$ 100 bilhões de faturamento, ele está somando US$ 40 bilhões de uma com US$ 65 bilhões da outra. Nenhum dos dois números é receita de doze meses. Os dois são receita recorrente anualizada, o ARR, que é a receita do último mês multiplicada por doze. Vale como projeção de quanto a empresa faturaria em um ano caso o mês mais recente se repetisse igual nos onze seguintes. A Anthropic saiu de US$ 30 bilhões em março para US$ 65 bilhões em agosto de 2026, o que mostra o quanto esse número se move dentro do mesmo exercício.

O ponto é saber se um valuation de quase US$ 1 trilhão pode se apoiar numa receita que, ao que tudo indica, está longe de se converter em fluxo de caixa livre ou lucro líquido.

O que a receita anualizada mede

A OpenAI faturou US$ 13,07 bilhões no ano de 2025, número que veio a público em junho de 2026, no demonstrativo auditado que acompanha o pedido de registro na SEC. A receita anualizada que circulava naquele mesmo mês era três vezes maior que isso. O mesmo documento traz um prejuízo líquido de US$ 38,53 bilhões, e vale abrir esse número antes de usá-lo.

A perda das operações ficou em US$ 20,92 bilhões, e a distância até os US$ 38,53 bilhões vem de itens contábeis sem saída de caixa, com destaque para uma marcação a valor justo de US$ 41,55 bilhões sobre conversíveis e direitos de subscrição (warrants) de investidores antigos, disparada pela conversão da empresa em corporação de benefício público (public benefit corporation).

Em setembro de 2025, a própria OpenAI dizia aos investidores que a queima de caixa do ano ficaria em US$ 8,5 bilhões.

Dois tópicos se perdem no caminho entre uma métrica e outra. O primeiro é a premissa de recorrência, já que anualizar o mês corrente supõe que o cliente de hoje continuará pagando amanhã, algo que até aqui os clientes vêm fazendo, embora nada obrigue o futuro a se comportar como o passado. O segundo, que na nossa leitura é o que pesa mais, é o resultado. Essas empresas gastam muito mais do que faturam, tanto no lucro líquido quanto na geração de caixa.

A Anthropic conta uma história um pouco diferente da OpenAI. Ela fechou o primeiro trimestre de 2026 no ponto de equilíbrio e divulgou em agosto o resultado preliminar do segundo trimestre, com lucro de US$ 559 milhões em métrica ajustada, que exclui a remuneração em ações, o primeiro da história dela. A OpenAI segue perdendo mais de um dólar para cada dólar de receita.

Convém guardar uma ressalva de comparação. O ARR de US$ 65 bilhões da Anthropic é bruto, porque ela reconhece o valor cheio faturado pela AWS, pelo Google Cloud e pelo Azure, e joga a fatia do parceiro no custo de vendas. Em abril de 2026, um memorando interno da OpenAI vazado para a The Verge estimava que os US$ 30 bilhões de ARR que a Anthropic divulgava em março equivaliam a cerca de US$ 22 bilhões em base líquida. Esse cálculo vale para março e não para os US$ 65 bilhões de agosto, e a Anthropic nunca publicou a versão líquida.

O valuation e o múltiplo

A OpenAI fechou em março de 2026 a maior rodada de captação privada já registrada, US$ 122 bilhões, com valor de mercado de US$ 852 bilhões. Comparando com a receita anualizada de agosto, dá 21 vezes. Já a Anthropic captou US$ 65 bilhões em maio de 2026 e chegou a US$ 965 bilhões de valuation. Sobre a receita anualizada do fim de julho, dá 14,8 vezes.

A SpaceX dá a única leitura de mercado aberto que existe nesse grupo. Ela abriu o capital em 12 de junho de 2026 valendo US$ 2,1 trilhões, contra receita anualizada de US$ 31,2 bilhões apurada no segundo trimestre, o que dá 67 vezes. Mesmo com a ação 7% abaixo do preço de abertura, a emissão de 389 milhões de ações novas para comprar a Cursor levou o valor de mercado de volta para perto de US$ 2,08 trilhões, e o múltiplo segue nas mesmas 67 vezes.

O investidor de bolsa paga por dólar de receita da SpaceX mais que o triplo do que o investidor privado pagou pela OpenAI e mais de quatro vezes o que pagou pela Anthropic. Uma leitura possível é que as duas fechadas estejam baratas frente ao que a bolsa aceita pagar. Parece mais provável que o mercado enxergue na SpaceX frentes de receita que a OpenAI e a Anthropic sequer perseguem, como o Starlink vendendo internet sem cabo em qualquer ponto do planeta e os planos de processamento de dados em órbita. Nos dois casos, as 67 vezes precificam crescimento futuro, com a companhia dando prejuízo líquido de US$ 541 milhões no mesmo trimestre.

Os números que aparecem nas manchetes, de US$ 1 trilhão para a OpenAI e de US$ 2 trilhões para a Anthropic, são alvos de abertura de capital. Nenhuma rodada de captação validou esses patamares, e é por isso que calculamos o múltiplo sobre o que o mercado de fato pagou.

Por que as três maiores foram atrás do IPO

O custo de crescer nessa velocidade não é capaz de ser coberto apenas com capital de risco. Por isso, a saída que ambas enxergaram foi justamente abrir o capital na bolsa.

A Anthropic protocolou o pedido de registro no dia 1º de junho de 2026, mirando a Nasdaq em outubro, com os bancos projetando uma oferta acima de US$ 60 bilhões. Por outro lado, a OpenAI protocolou em 8 de junho e voltou atrás em 25 do mesmo mês, adiando para 2027 por recomendação dos assessores.

O gatilho imediato foi a queda de mais de 20% da ação da SpaceX logo depois da estreia, que esfriou o apetite do mercado por abertura de capital de tecnologia naquele momento. Pelo relato do New York Times, os assessores colocaram a escolha entre abrir em 2026 com um valuation menor ou esperar 2027, e Sam Altman recusou qualquer número abaixo de US$ 1 trilhão. A empresa disse ao mercado que a espera pode durar, porque existem coisas que ela quer fazer e que são mais fáceis com o capital fechado.

A terceira já fez o seu, e foi justamente a SpaceX.

A SpaceX abriu o capital

A SpaceX estreou na Nasdaq em 12 de junho de 2026, depois de incorporar a xAI, sob o código SPCX. O preço de emissão foi de US$ 135 por ação, a abertura saiu a US$ 150 e o primeiro dia fechou perto de US$ 161. Foram US$ 75 bilhões captados na oferta e um valor de mercado de US$ 2,1 trilhões no fim daquele dia, a maior estreia da história.

O primeiro balanço trimestral saiu em 4 de agosto e mostrou receita de US$ 7,8 bilhões, alta de 92% contra o mesmo trimestre de 2025 e acima do consenso, que ia de US$ 6,7 a US$ 6,9 bilhões. O prejuízo líquido foi de US$ 541 milhões, contra US$ 1,0 bilhão no trimestre anterior. Em caixa e aplicações a companhia tem US$ 100 bilhões, e a carteira de contratos está em US$ 47,5 bilhões.

O que não agradou o mercado foi o investimento em Capex (ativo fixo) do trimestre, de US$ 18,37 bilhões contra US$ 10,1 bilhões no trimestre anterior, com a diretoria avisando que os dois trimestres seguintes seriam parecidos.

Aberto por segmento, o balanço mostra uma empresa lucrativa carregando duas deficitárias. A Starlink faturou US$ 4,29 bilhões e entregou US$ 1,66 bilhão de lucro. O segmento espacial faturou US$ 962 milhões e perdeu US$ 542 milhões, por causa de um aumento de US$ 389 milhões em pesquisa e desenvolvimento da Starship. O segmento de IA, que é a antiga xAI, faturou US$ 2,56 bilhões e perdeu US$ 1,26 bilhão.

Dez dias depois, a companhia comprou a Cursor por US$ 60 bilhões em ações, emitindo 389 milhões de papéis novos para isso.

O preço desde a abertura

A ação chegou a subir 50% sobre o preço de abertura, e desde a máxima chegou a cair 53%. Hoje está 38% abaixo da máxima e 7% abaixo do preço de abertura.

O primeiro lockup (período em que os sócios anteriores à oferta ficam proibidos de vender) venceu em 6 de agosto. Os próximos vencem ao longo dos meses seguintes, e cada um deles libera um novo bloco de ações para o mercado. A pressão vendedora que existe hoje tende a aumentar, com uma base de acionistas que comprou a preços privados muito mais baixos.

A SpaceX é a única das três que já mostra balanço auditado, receita de doze meses e uma linha de negócio que dá lucro. Se essa é a que está 38% abaixo da máxima quatro meses depois de estrear, fica a pergunta que passamos a fazer aqui na casa.

O IPO da SpaceX foi o topo da bolha dos valuations de IA?

Em retrospecto, marcos assim costumam ser fáceis de apontar. A Netscape abriu o capital em agosto de 1995, quase cinco anos antes do pico da pontocom. A AOL comprou a Time Warner em janeiro de 2000, dois meses antes do pico. Nenhuma das duas datas parecia um marco no dia em que aconteceu.

O que sabemos hoje são os números, onde as duas maiores empresas em receita anualizada somam US$ 105 bilhões, US$ 1,8 trilhão de valor de mercado validado e prejuízo em quase toda a série.

Juros, dívida e o custo de apostar na certeza do Fed

Os preços dos ativos americanos embutiram em agosto uma alta de juros ainda este ano. A precificação atual traz uma alta até o fim do ano, com a possibilidade de uma segunda nos doze meses seguintes e, segundo relatório do J.P. Morgan, enquanto o Federal Reserve não ultrapassar duas altas nesse horizonte, os ativos de risco tendem a permanecer resilientes.

O argumento se apoia em uma comparação com os dois ciclos de aperto mais recentes. Entre 2015 e 2018, o Fed elevou os juros em 225 pontos-base; entre 2022 e 2023, em mais de 500. Em ambos os episódios, a bolsa americana registrou correções. A partir desses dois casos, o J.P. Morgan calcula o impacto médio de cada 25 pontos-base isoladamente, e o compara com o que os ativos já oscilaram desde meados de junho, quando as expectativas de alta começaram a ser incorporadas aos preços.

Tabela do J.P. Morgan com a reacao implicita a uma alta de 25 pontos-base

Fonte: J.P. Morgan, “When Will the Fed Hike? It Doesn’t Matter”, agosto de 2026. Dados: Bloomberg Finance L.P., 13/08/2026.

A reação implícita a uma alta de 25 pontos-base seria de -3,3% no S&P 500, +0,19% no título de 10 anos do Tesouro americano, +0,11% nos spreads de crédito grau de investimento e +1,9% no dólar. O movimento efetivamente observado desde meados de junho já foi de -4,0%, +0,40%, +0,08% e +2,7%, respectivamente. Em três das quatro medidas, os preços andaram tanto ou mais do que o implícito por essa alta. Boa parte do aperto esperado já estaria, portanto, no preço.

Em Jackson Hole, no dia 28 de agosto, o presidente do Fed, Kevin Warsh, reforçou o desconforto com a orientação futura (forward guidance) que já trouxemos na carta de julho. Nas palavras dele, “A transparência na comunicação sobre futuras decisões políticas não é uma virtude em si mesma. A comunicação deve estar a serviço da responsabilidade primordial do Fed, que é acertar a política monetária”.

Para Warsh, em tempos normais a orientação futura corre o risco de criar ambiguidade, e o excesso de compromisso com decisões futuras limita a liberdade do próprio Comitê.

O discurso reforçou o compromisso com a meta de inflação de 2% do Fed, medida pelo PCE. O último dado disponível, referente a julho, revelou o índice cheio em 3,7% em doze meses e núcleo em 3,3%, esse mais preocupante, por mostrar mais resiliência. Warsh foi explícito ao afirmar que a inflação não retorna necessariamente à meta por conta própria e que entregar preços estáveis é trabalho do Fed.

A Hartford Funds investigou o comportamento da bolsa americana sob diferentes regimes de inflação. A pesquisa descobriu que as ações superaram a inflação 90% das vezes quando a inflação estava baixa, abaixo de 3% em média, e em alta. Mas quando a inflação estava alta, acima de 3% em média, e acelerando, o desempenho das ações foi estatisticamente como um jogo de “cara ou coroa”. Vale registrar que o estudo usa como referência de inflação o CPI.

Desempenho real dos setores da bolsa americana sob inflacao alta

Fonte: Hartford Funds / Schroders Investment Management, “Which Equity Sectors Can Combat Higher Inflation?”, fevereiro de 2026. Dados: LSEG Datastream e Schroders.

No extremo mais favorável, o setor de energia (petróleo e gás) superou a inflação em 74% dos períodos, com retorno real médio de 12,9% ao ano, resultado natural de receitas atreladas ao próprio preço da energia. Os REITs de equity vêm em seguida, com 66% de frequência e retorno real médio de 4,6%, sustentados pelo repasse de preços em contratos de aluguel e no valor dos imóveis.

TESOURO AMERICANO DOBRA AS RECOMPRAS DE TÍTULOS DA DÍVIDA PÚBLICA

O Departamento do Tesouro americano anunciou, em 19 de agosto, que irá no mínimo duplicar o volume de suas recompras de títulos da dívida pública de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões. O anúncio veio depois de os juros soberanos nos vértices longos atingirem patamares não vistos em quase duas décadas. Liderado pelo secretário Scott Bessent, o programa terá como alvo os vencimentos de 10 a 30 anos. A justificativa oficial foi de “suporte de liquidez”.

A recompra torna o Tesouro um comprador maior de papéis longos. A medida atrai compradores pela alta prévia dos juros, força alguma recompra de posições vendidas no curto prazo e desestimula apostas agressivas contra os títulos longos por receio de nova intervenção.

Warsh afirmou que o Fed precisa de sinais de mercado claros e o menos filtrados possível, e um volume maior de recompras filtra justamente uma das variáveis que o Comitê observa. Somado a isso, o fato de o próprio Warsh ter avaliado que teria dificuldade em descrever as condições financeiras amplas como restritivas reforça a ideia de um papel mais ativo na política monetária para combater a inflação.

A CRÍTICA DE DRUCKENMILLER

Em 24 de agosto, o Wall Street Journal publicou uma coluna de opinião assinada por Stanley F. Druckenmiller, presidente e CEO do Duquesne Family Office, criticando a recompra. O texto ganha peso adicional por quem o assina, dado que Druckenmiller trabalhou com Scott Bessent na Soros Fund Management e com Kevin Warsh no próprio Duquesne Family Office.

Para Druckenmiller, o Tesouro fez controle de juros. Ele observa que não houve nada que se assemelhasse à disfunção dos títulos do Tesouro americano em março de 2020 ou dos gilts britânicos em setembro de 2022, os episódios que justificariam ação oficial. A volatilidade nos títulos estava contida e a negociação, ordenada. E a própria justificativa do Tesouro, na leitura dele, mostra que a forte demanda recorrente descreve um mercado saudável.

O que os preços estariam embutindo, para ele, é solvência, com inflação entre 3% e 4% e acima da meta desde 2021, desemprego em 4,1%, déficit próximo de 6% do PIB em pleno emprego, dívida nacional ultrapassando US$ 40 trilhões na mesma semana da intervenção e juros líquidos que devem superar US$ 1,1 trilhão neste ano fiscal. Como ele resume, a ferramenta de liquidez só adia a conversa sobre solvência e eleva o preço final.

Ao recomprar papéis longos e financiar a compra com emissão de títulos curtos, o Tesouro tira o risco dos juros de longo prazo das mãos do público. Segundo Druckenmiller, é uma dose reduzida de afrouxamento quantitativo (quantitative easing) feita fora do Fed, que afrouxa condições financeiras num momento em que a inflação está acima da meta.

Druckenmiller lembra que, de 1942 a 1951, o Federal Reserve manteve teto para os juros longos, a fim de financiar a Segunda Guerra; o teto sobreviveu à guerra, financiou déficits com emissão monetária e alimentou uma inflação de dois dígitos, até que o Acordo Tesouro-Fed de 1951 o revogou.

A separação entre gestão de dívida e gestão de preço foi erguida por um motivo. A proposta dele tem três frentes. A primeira devolve as recompras à finalidade declarada, com operações pequenas, programadas e anunciadas nos leilões trimestrais de refinanciamento. A segunda alonga o prazo da dívida pagando o preço que o mercado determinar. A terceira ataca o déficit primário. Se o título de 30 anos precisa negociar a 5,5% para encontrar comprador, então “o preço é esse”.

Para a carteira de investimento, a data da próxima alta importa menos do que o prazo em que o risco se acumula. Com boa parte do aperto já no preço e com o núcleo do PCE em 3,3%, o ponto sensível está no trecho longo da curva americana, exatamente onde o Tesouro decidiu intervir. Seguimos privilegiando prazos curtos na renda fixa americana.

Acreditamos verdadeiramente que a boa informação é a primeira linha de defesa do seu patrimônio. Seguimos monitorando as assimetrias no Brasil e no mundo para manter a sua estratégia sempre blindada no longo prazo.

Não deixe o cenário ditar os rumos dos seus investimentos. Clique no link abaixo e fale com o nosso time para ajustar as velas da sua carteira.

https://lp.zanellawealth.com.br/

Até a próxima edição!

Carta elaborada por Renan Zanella, CFA, Lucas Viero De Conti, CNPI, Felipe Mesquita, CFP® e Pedro Dornelles, CEA.

Renan Zanella, CFA
Renan Zanella, CFA
Artigos: 196

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *