Gestão ativa x passiva: a pergunta errada que custa retorno ao investidor com patrimônio elevado

Em 10 anos, 88% dos fundos ativos brasileiros perderam para o benchmark. Os dados também mostram quando a gestão ativa ganha — e em quais classes de ativo isso muda tudo.

Tratar gestão ativa e passiva como adversárias ideológicas é o principal erro de alocação que nenhuma taxa de performance vai devolver.

A DISCUSSÃO QUE DISTRAI

O investidor com patrimônio elevado que chega a uma conversa de alocação carrega, quase sempre, uma preferência formada: ou acredita que gestores qualificados entregam retorno superior ao mercado, ou já concluiu que a maioria não entrega e que ETFs bastam. Ambas as posições têm dados que as suportam, e as duas são incompletas. O verdadeiro custo dessa discussão vem de escolher o mesmo instrumento para todas as classes de ativos, como se eficiência fosse uma propriedade do gestor e não do mercado em que ele opera.

A divisão entre gestão ativa e passiva estruturou décadas de debate no mercado financeiro. Dez anos de dados, com uma consistência difícil de contestar, mostram que esse debate precisa de uma reformulação. Para quem administra R$ 1 milhão ou mais, a pergunta útil é em qual combinação de mercados e horizontes cada abordagem entrega resultado acima do seu custo.

O QUE DEZ ANOS DE DADOS DIZEM

O Scorecard SPIVA, relatório semestral publicado pela S&P Dow Jones Indices, mede o desempenho de fundos ativos contra seus índices de referência. No Brasil, os resultados em janelas longas são persistentes: 88,9% dos fundos de ações large-cap brasileiros perderam para o S&P Brazil LargeCap em 10 anos, segundo análise da newsletter Deepi Insight sobre o Scorecard SPIVA. Entre os fundos de renda fixa corporativa, 94,5% ficaram abaixo do benchmark no mesmo período, de acordo com o SPIVA analisado pela newsletter Deepi Insight. Para fundos de ações globais geridos ativamente no Brasil, o número chegou a 100% de subperformance em 10 anos.

Há um dado que raramente entra na conversa sobre fundos ativos: a taxa de sobrevivência. Segundo a Investing.com, apenas 33% dos fundos de ações brasileiros que existiam há 10 anos ainda estão ativos. Para o investidor multimilionário que alocou capital num desses fundos extintos, os resultados negativos saíram do denominador antes de contaminar as estatísticas do setor. Quem compara o fundo ativo sobrevivente com o índice de referência está, sistematicamente, ignorando os 67% que não chegaram lá.

ONDE A GESTÃO ATIVA FUNCIONA

Os mesmos dados que documentam a dificuldade da gestão ativa no longo prazo mostram condições específicas em que ela entrega. A Hartford Funds identificou, analisando 35 anos de mercado americano, que a gestão ativa superou a passiva em 21 das 27 correções registradas no período, com vantagem média de 1,05 ponto percentual. No ciclo de 2000 a 2009, quando bolhas estouraram e o mercado oscilou com alta dispersão, a gestão ativa venceu em 9 dos 10 anos.

A análise por classe de ativo revela a mesma assimetria. Segundo levantamentos trimestrais da Envestnet, em Q1 2025 os fundos ativos de small cap nos EUA entregaram +1,49% acima do benchmark, enquanto em Q2 2025 os fundos ativos em mercados emergentes superaram o índice em +0,88%. Em renda fixa, mesmo os gestores ativos tradicionais continuam majoritariamente abaixo do benchmark, mas com subperformance menos severa que em ações: a State Street Global Advisors (SSGA) apurou que 53% dos gestores ativos de renda fixa ficaram abaixo de seus índices em 2025, contra 68% entre os gestores de ações. O dado que efetivamente muda o jogo no segmento vem dos ETFs ativos de renda fixa, onde 60% superaram os benchmarks em 2025, contra 43% dos fundos mútuos ativos equivalentes.

Para investidores com patrimônio acima de R$ 5 milhões, esses dados têm implicação direta. Usar gestão ativa em mercados eficientes demais, onde nenhum gestor obtém vantagem consistente, é onde o custo se torna indefensável. Em small caps, mercados emergentes e via ETFs ativos de renda fixa, a evidência aponta para resultado diferente.

ONDE A PASSIVA É ESTRUTURALMENTE SUPERIOR

Em large-cap equity com alta eficiência informacional, especialmente nos EUA, a vantagem da gestão passiva é estrutural. Em H1 2025, 54% dos fundos ativos de grande capitalização americanos ficaram abaixo do S&P 500, segundo análise da Sustainable Investing com base no SPIVA. No acumulado de 10 anos, esse número sobe consistentemente para acima de 80% em quase todas as geografias monitoradas pelo relatório.

Em 2025, fundos mútuos de gestão ativa sofreram US$ 640 bilhões em resgates líquidos, marcando o nono ano de saídas na última década, segundo a SSGA. Em mercados líquidos e amplamente cobertos por analistas, os custos da gestão ativa consomem boa parte do eventual excesso de retorno. Para o investidor com alto patrimônio que paga taxa de administração de 2% ao ano mais performance de 20%, a equação precisa de um resultado muito acima da média para justificar o custo em mercados onde 88% dos gestores ficam abaixo do benchmark.

O TERCEIRO CAMINHO

O movimento mais relevante de 2025 foi a migração para estruturas que combinam gestão ativa e passiva dentro de um único veículo. Os ETFs de gestão ativa captaram um recorde de US$ 580 bilhões em 2025, segundo a SSGA, com destaque para renda fixa, categoria em que os gestores ativos mostraram maior capacidade de gerar alfa. No Brasil, o patrimônio total em ETFs saltou de R$ 54 bilhões para R$ 91 bilhões em 2025, com 60 novos produtos lançados, segundo dados da B3.

Além dos ETFs de índice tradicionais, surgiram produtos de smart beta, que seguem índices construídos por fatores como volatilidade, dividendos e valor, e ETFs híbridos que combinam renda fixa e renda variável global na mesma estrutura.

“As pessoas fazem muita confusão; enxergam ETF como classe de ativo, quando, na verdade, o ETF é uma casca para acessar diferentes classes.” – Alexandre Frade, Itaú Asset (B3 – Bora Investir, 19/01/2026)

Para investidores multimilionários, a implicação é prática: smart beta e ETFs ativos de renda fixa permitem manter os benefícios estruturais do ETF, como transparência, liquidez e custo inferior ao fundo mútuo ativo, sem abrir mão da seleção em categorias onde a gestão ativa tem vantagem estatística comprovada.

O PREÇO CONCRETO PARA QUEM TEM R$ 1 MILHÃO

Para um portfólio de R$ 1 milhão integralmente alocado em fundos ativos de ações large-cap, a combinação de taxa de administração média de 2% ao ano com a probabilidade de 88% de ficar abaixo do benchmark cria uma equação desfavorável na grande maioria dos cenários. Em 10 anos, com retorno bruto de mercado de 10% ao ano, o fundo ativo médio, com suas taxas descontadas, entrega centenas de milhares de reais a menos que o índice ao longo do período.

Para R$ 5 milhões, o mesmo raciocínio se aplica com maior impacto absoluto. A alocação baseada em evidência por classe de ativo distingue onde pagar pela gestão ativa faz sentido — small caps, correções de mercado, ETFs ativos de renda fixa — e onde o custo adicional destrói o retorno sem contrapartida proporcional.

“A gestão ativa não está morta — mas precisa justificar seu custo com desempenho consistente, o que, como mostram os dados, segue sendo exceção, não regra.” – Gabriel Santos, autor do newsletter Deep Insight (Deepi Insight, 15/04/2025)

VOCÊ ESTÁ PAGANDO PELA EXCEÇÃO?

Os dados não condenam a gestão ativa nem elevam a passiva a dogma. Décadas de evidência acumulada mostram que a eficiência de cada abordagem varia por país, mercado, horizonte e ciclo. Investidores com alto patrimônio que tratam essa escolha como preferência pessoal, em vez de decisão baseada em evidência por classe de ativo, pagam pela estrutura que convém ao distribuidor, não pela que convém ao portfólio.

Sua carteira foi estruturada em torno do produto que o seu gestor prefere vender, ou da classe de ativo onde a evidência favorece o tipo de gestão que você está pagando?

Se você busca ajuda de um time qualificado e independente para te guiar nesses movimentos de mercado, entre em contato com a Zanella Wealth: zanellawealth.com.br/contato/

Renan Zanella, CFA
Renan Zanella, CFA
Artigos: 176

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