Os jatos privados voaram mais de 3,8 milhões de vezes em 2025 e o Brasil já abriga a segunda maior frota do mundo. A conta que sustenta esse boom raramente fecha para quem compra sozinho.
UM ANO QUE ENTROU PARA A HISTÓRIA
Os jatos de negócios registraram 3.878.836 voos no mundo em 2025, alta de 4,6% sobre o ano anterior e o maior volume já contabilizado, segundo levantamento citado pela Forbes. O movimento superou os picos da pandemia, período em que o fretamento ganhou tração como alternativa ao voo comercial. Por trás do recorde está o crescimento das grandes fortunas, com a população ultrarrica global passando de 520 mil pessoas. Para a família com patrimônio acima de R$ 5 milhões, o dado interessa por um motivo concreto, já que a compra de um avião costuma chegar à mesa de decisões como se fosse um investimento, quando se comporta como um dos ativos mais caros de carregar.
O país tem hoje a segunda maior frota de aviação executiva do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos, com mais de 1.100 jatos privados registrados. A frota total da aviação de negócios chegou a 11.239 aeronaves em novembro de 2025, crescimento de 6,5% no ano, segundo levantamento da Avantto com base em dados da ANAC. O segmento de jatos avançou ainda mais rápido, 17% em doze meses, a maior taxa anual já registrada, somando 1.140 unidades ativas.
O BRASIL VIROU O SEGUNDO MAIOR MERCADO DO PLANETA
O perfil de quem voa mudou junto com o tamanho da frota. A demanda doméstica migrou dos jatos leves e médios para modelos de cabine ampla e longo alcance, capazes de cruzar o Atlântico sem escala. A mudança acompanha a internacionalização dos negócios e das famílias brasileiras de alto patrimônio, que passaram a manter operações, estudos e residências fora do país.
"Cada vez mais, vemos filhos de brasileiros estudando no exterior, morando em casas nos Estados Unidos, na Europa e em outros países. Paralelamente, as empresas brasileiras também estão se expandindo globalmente." A leitura é de Fernando Fleury, head do Citi Private Bank para o Brasil.
O agronegócio sustenta a outra ponta da demanda. Empresários do interior, muitos deles de alto patrimônio, usam a aviação executiva para vencer a deficiência da malha comercial, que serve apenas 130 dos cerca de 2.500 aeródromos certificados no país. Em regiões como o Mato Grosso e o oeste da Bahia, o avião funciona como ferramenta de trabalho, encurtando deslocamentos que o transporte regular simplesmente não cobre. Operadores de cotas relatam que de 70% a 80% das horas voadas por seus clientes têm finalidade profissional, e o restante fica para o lazer.
"Esse crescimento da frota mostra como a aviação executiva tem se consolidado como uma ferramenta essencial para o desenvolvimento econômico, conectando regiões, reduzindo distâncias e aumentando a eficiência das empresas." A avaliação é de Rogério Andrade, CEO da Avantto.
A FÁBRICA NÃO PARA E A FILA SÓ CRESCE
Do lado da oferta, os fabricantes vivem o melhor momento em mais de uma década. A Embraer entregou 155 jatos executivos em 2025, recorde histórico da companhia, puxada pela linha Phenom, que respondeu por 96 das unidades. A receita total da fabricante brasileira superou R$ 41,9 bilhões no ano, com carteira de pedidos firmes de US$ 31,6 bilhões ao fim de dezembro, segundo balanço divulgado pela própria empresa.
A concentração de pedidos se repete fora do Brasil. A Gulfstream, fabricante americana dos jatos de grande porte mais procurados pelo público de altíssimo patrimônio, fechou o terceiro trimestre de 2025 com carteira de US$ 20,6 bilhões e filas que empurram entregas por anos. A Honeywell projeta 8.500 novos jatos executivos no mundo na próxima década, um mercado de US$ 283 bilhões, o maior em 34 anos de histórico do estudo.
As frotas de propriedade fracionada cresceram mais de 65% no mundo desde 2019, o segmento que mais avança no setor, e esse dado aponta direto para a economia da posse, porque a fração se popularizou justamente onde a compra integral não fecha a conta.
A MATEMÁTICA DA POSSE
A propriedade compartilhada ganhou o mercado porque a posse integral de um jato é um dos compromissos de capital mais pesados que um indivíduo pode assumir. Trazer um único Gulfstream G550 ao mercado brasileiro custou US$ 26 milhões à Prime You, aeronave com autonomia de 12.500 quilômetros e capaz de voos intercontinentais sem escala, segundo a Exame. A esse desembolso inicial somam-se tripulação, seguro, hangaragem e manutenção programada, custos que correm mesmo com a aeronave parada no solo, onde um avião só gera despesa.
Para o comprador com R$ 10 milhões em ativos financeiros, a matemática raramente recomenda a compra solo, porque a aeronave passa a maior parte do tempo subutilizada. Operadores de cotas resolveram esse desencontro vendendo um pedaço do ativo atrelado ao serviço completo, da contratação de pilotos à gestão de agenda entre os cotistas. É por isso que muita gente com capacidade de comprar sozinha prefere dividir, ganhando acesso ao avião sem herdar a operação inteira.
Se você encara o jato como reserva de valor, os números contam outra história. Salvo distorções pontuais de oferta, como a escassez de seminovos no auge da pandemia, uma aeronave executiva se deprecia com o uso, e essa perda de valor corre lado a lado com os custos fixos. O que a posse de fato entrega é tempo, um ganho concreto que, ainda assim, jamais aparece como rentabilidade na carteira. Para a família de alto patrimônio, essa distinção define se o avião entra na carteira como consumo de alto padrão ou como um erro de alocação travestido de investimento.
ONDE O MODELO RACHA
O recorde convive com fragilidades que o entusiasmo costuma deixar de lado. A própria expansão da propriedade fracionada produziu vítimas, com operadoras estrangeiras como Jet It, Verijet e Volato encerrando atividades nos últimos anos e deixando cotistas sem o serviço contratado. Quem compra uma fração assume risco de contraparte sobre a saúde financeira do operador, um risco que pesa tanto quanto a escolha da aeronave e que poucos compradores avaliam com o mesmo cuidado.
A cadeia de suprimentos global adiciona pressão. Gargalos de peças e manutenção têm mantido aeronaves paradas no solo e alimentado disputas judiciais bilionárias entre operadores e fornecedores. Na Europa, a pressão regulatória contra os jatos particulares avança, com propostas de aumento de impostos e até pedidos de banimento impulsionados por um forte movimento anti-riqueza, mesmo com as decolagens em alta no continente. Para o investidor de alto patrimônio, esses fatores acrescentam camadas de risco que a compra de um carro de luxo, por exemplo, nunca carregou.
O JATO COMO DECISÃO DE PATRIMÔNIO
O boom da aviação executiva é concreto e os números de 2025 confirmam um ciclo de expansão que deve seguir pela próxima década. Para quem administra patrimônio relevante, o avião pede o mesmo rigor de qualquer ativo ilíquido, caro de manter e incapaz de valorizar. Querer o jato é legítimo, e tratá-lo com a leveza de uma compra por impulso é que sai caro.
Estruturar a decisão significa estimar quantas horas a aeronave voará por ano, comparar compra integral, cota e fretamento, e medir o custo anual contra o ganho de tempo que ela entrega. A família que faz essa conta antes costuma chegar a uma escolha diferente da que faria no calor do recorde. Sinto muito se o folheto do fabricante já convenceu você, mas o avião dos sonhos só vira boa decisão depois que a planilha fecha.
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