PREVISÕES ECONÔMICAS ANTECIPARAM SÓ 5 DE 153 RECESSÕES
Em 63 países, o consenso dos economistas antecipou 5 de 153 recessões. O livro Superprevisões mostra quanto isso custa a uma carteira de alto patrimônio.
O relatório de projeções chega ao investidor sem o histórico de acertos de quem assina, e os estudos que mediram esse histórico encontraram um resultado perto do acaso.
EM 28 MIL PREVISÕES, OS ESPECIALISTAS EMPATARAM COM O ACASO
O investidor com R$ 10 milhões recebe previsões econômicas na carta mensal do banco, na palestra do economista-chefe e na estimativa de bolsa para dezembro, e quase nenhuma delas vem com o histórico de acertos de quem assina. Philip Tetlock, professor da Universidade da Pensilvânia, e o jornalista Dan Gardner contam, no livro Superprevisões (Objetiva, 2016), que bancos pagam especialistas famosos para falar a clientes ricos sobre a economia global em 2050, e que os contratantes raramente conferem o acerto dessas estimativas. Tetlock fez essa conferência de 1984 a 2004. Reuniu 284 especialistas em política e economia, com 12,2 anos de experiência em média e doutorado em metade dos casos, e coletou cerca de 28 mil previsões.
"O especialista médio foi mais ou menos tão preciso quanto um chimpanzé atirando dardos." – Philip Tetlock e Dan Gardner, em Superprevisões
O mesmo estudo encontrou uma relação inversa entre a fama do especialista e a precisão das previsões dele, o que deixa o economista mais citado na imprensa com um histórico pior, em média, que o dos colegas menos conhecidos. Se você não sabe dizer quantas das previsões que recebeu no ano passado se confirmaram, está na mesma posição dos clientes daquela palestra sobre 2050.
Ou seja, a previsão de um especialista conhecido acertou tanto quanto um palpite ao acaso.
O CONSENSO PREVIU 5 DE 153 RECESSÕES
Em dezembro de 2007, Larry Kudlow, economista e apresentador da rede CNBC, escreveu que não existia recessão nos Estados Unidos. O National Bureau of Economic Research apontou depois aquele mesmo mês como o início oficial da Grande Recessão, segundo o relato de Tetlock e Gardner. O estudo que os economistas Zidong An, João Tovar Jalles e Prakash Loungani publicaram pelo Fundo Monetário Internacional em 2018 encontrou o mesmo erro em quase todas as recessões da amostra. Eles compararam as previsões de consenso dos economistas com o PIB de 63 países entre 1992 e 2014, período que teve 153 recessões, e, em abril do ano anterior, o consenso previa a queda do PIB em 5 delas. O investidor com R$ 5 milhões que esperasse o aviso dos economistas para proteger a carteira ficaria sem ele em 148 dessas recessões.
Em outubro do próprio ano da recessão, a dois meses do fim, 35 das 153 continuavam fora do consenso. A previsão feita em abril do ano anterior ficou, em média, 5,85 pontos percentuais acima do PIB que se confirmou nos anos de recessão, e a de outubro do próprio ano ainda errava por 0,41 ponto. Os erros do próprio FMI tiveram correlação acima de 0,9 com os do consenso privado. Para um patrimônio de R$ 10 milhões, a previsão do FMI carrega o mesmo erro da previsão do banco.
Em outras palavras, os economistas só enxergaram a recessão quando ela já tinha começado.
A 6 Meridian, consultoria de investimentos dos Estados Unidos, levantou com dados da Bloomberg as previsões dos estrategistas de Wall Street para o S&P 500 em 25 anos. A previsão típica para o ano seguinte foi de alta de 8,8%, e o S&P 500 caiu em 7 desses 25 anos. Para 2008, a média das previsões apontava uma alta de 9,2%, e o S&P 500 terminou o ano com queda de 38,5%. Em uma carteira de R$ 2 milhões em ações americanas, a distância entre o ganho previsto de R$ 184 mil e a perda de R$ 770 mil chegou a R$ 954 mil.
Em 2001, os estrategistas previam uma alta de 19%, a maior da série, e o S&P 500 caiu 13%. Em 2024, o erro veio pelo outro lado, com uma previsão de alta de 2% e um resultado de 23%. Steve LeCompte, da CXO Advisory, acompanhou as previsões públicas de gurus de bolsa e chegou a uma taxa média de acerto de 48%, abaixo dos 50% de um cara ou coroa.
Sendo assim, as previsões de bolsa erraram mais nos anos que mais mexeram com o patrimônio.
A SELIC FECHOU FORA DAS PROJEÇÕES EM 16 DE 21 ANOS
O Banco Central reúne toda semana, na pesquisa Focus, as projeções de economistas de bancos, gestoras e consultorias. O Poder360 comparou o primeiro relatório de janeiro com o resultado do fim de cada ano, de 2002 a 2022, e a Selic terminou fora do intervalo entre a menor e a maior projeção em 16 dos 21 anos. O PIB ficou fora em 9 anos e o IPCA, em 8. A distância média entre a Selic do fim do ano e a mediana das projeções foi de 2,55 pontos percentuais, o que, para um investidor com R$ 5 milhões em títulos pós-fixados, equivale a R$ 127,5 mil de rendimento em um ano.
César Locatelli, mestre em economia política pela PUC-SP, comparou, em um artigo de 2023 na revista Pesquisa e Debate, as projeções da pesquisa Focus em cada reunião do Copom com o que se confirmou. Na reunião de maio de 2020, os economistas projetavam um IPCA de 3,30% para 2021, uma Selic de 3,75% e o dólar a R$ 4,75 no fim daquele ano. O IPCA de 2021 fechou em 10,06%, a Selic em 9,25% e o dólar em R$ 5,58. A projeção de inflação para 2021 só passou de 5% em maio do próprio ano e chegou a 8,35% em setembro. Uma carteira de R$ 2 milhões montada em maio de 2020 com base nesses números enfrentou, no ano seguinte, o triplo da inflação projetada.
Desse modo, os economistas que acompanham o Brasil todos os dias erraram os juros do ano seguinte na maior parte das vezes.
O GIRO DE CARTEIRA CUSTOU 7 PONTOS AO ANO
Brad Barber e Terrance Odean, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Davis, analisaram as contas de 66.465 famílias em uma corretora americana entre 1991 e 1996. As famílias que mais negociaram tiveram um retorno de 11,4% ao ano depois dos custos de negociação, contra 18,5% das que menos negociaram, em um período em que o mercado rendeu 17,9% ao ano. Cada compra seguida de venda custava 3% em comissões e 1% em spread, e a família média girava mais de 75% da carteira por ano.
"Nossa mensagem central é que negociar é perigoso para o seu patrimônio." – Brad Barber e Terrance Odean, no Journal of Finance
A diferença de 7,1 pontos percentuais por ano, sobre R$ 5 milhões, equivale a R$ 355 mil em doze meses. Os dois autores atribuem o giro alto ao excesso de confiança do investidor, que troca de posição porque acredita saber o que vem pela frente. Se você mudou a alocação mais de uma vez no último ano por causa de uma previsão, a sua carteira está mais perto do grupo de 11,4% que do grupo de 18,5%.
Logo, as famílias que mais mexeram na carteira ficaram com menos dinheiro que as famílias que deixaram a carteira quieta.
A Morningstar mede a mesma perda no relatório Mind the Gap. Na edição de 2025, com mais de 25 mil fundos e ETFs dos Estados Unidos, o dólar médio investido rendeu 7,0% ao ano nos dez anos até dezembro de 2024, contra 8,2% dos próprios fundos. A diferença de 1,2 ponto por ano vem do momento em que o investidor entra e sai, e chegou a 1,8 ponto nos fundos com entradas e saídas mais voláteis. Em R$ 10 milhões, ela separa R$ 21,99 milhões de R$ 19,67 milhões depois de dez anos, uma distância de R$ 2,32 milhões.
Howard Marks, cofundador da Oaktree Capital, registrou no memorando The Illusion of Knowledge, de setembro de 2022, que o HFRI Macro, índice de hedge funds que investem com base em previsões macroeconômicas, rendeu 2,8% ao ano em dez anos, contra 13,8% do S&P 500. O investidor de alto patrimônio que pagou taxas a fundos desse tipo ficou 11 pontos percentuais por ano atrás do S&P 500.
Na prática, o prejuízo vem das trocas que o investidor faz na carteira por causa da previsão.
PREVER FUNCIONA, DENTRO DE UM ANO E COM PLACAR
A IARPA, agência de pesquisa da inteligência americana, organizou entre setembro de 2011 e junho de 2015 um torneio com cinco equipes, cerca de 500 perguntas sobre assuntos internacionais e mais de 1 milhão de pareceres. O Good Judgment Project, a equipe de Tetlock, reuniu mais de 20 mil voluntários e superou o grupo de controle em 60% no primeiro ano e em 78% no segundo. Doug Lorch, programador aposentado da IBM, respondeu 104 perguntas no primeiro ano, ficou em 5º lugar entre 2.800 voluntários e terminou o segundo ano em 1º lugar.
Os 2% melhores, que o livro chama de superprevisores, atualizavam as previsões com mais frequência e em passos menores que os demais participantes. Tim Minto, engenheiro de software, atualizou uma única previsão 34 vezes em três meses, com ajuste médio de 3,5 pontos percentuais por vez. Um terço das previsões desse grupo usava escala de 1 ponto percentual, e os previsores comuns arredondavam para dezenas. No terceiro ano do torneio, os superprevisores fizeram 6,70 previsões por pergunta, contra 2,92 do restante, segundo um artigo da psicóloga Barbara Mellers e de coautores na revista Perspectives on Psychological Science. Para a família com R$ 10 milhões, o hábito que serve à carteira é o de ajustar a posição em passos pequenos.
Traduzindo, os melhores previsores davam um número, conferiam o resultado e corrigiam aos poucos.
Tetlock e Gardner relatam que uma leitura de cerca de 60 minutos sobre esses métodos aumentou a precisão dos participantes em cerca de 10% ao longo do ano. Os previsores em equipe foram 23% mais precisos que os que trabalhavam sozinhos, e as equipes de superprevisores ficaram de 15% a 30% à frente dos mercados preditivos, plataformas em que os participantes apostam dinheiro no resultado de eventos.
A grande maioria das perguntas do torneio tinha prazo entre um mês e um ano, e o próprio Tetlock mostra que a precisão dos especialistas chega perto do acaso em horizontes de três a cinco anos. Segundo o livro, cerca de 30% dos superprevisores saem do grupo dos 2% melhores de um ano para o outro. O investidor com R$ 5 milhões que planeja a aposentadoria ou a sucessão trabalha com prazos de dez a vinte anos, bem depois do ponto em que a precisão dos especialistas já estava perto do acaso.
Dito de forma simples, previsão só deu certo para prazos de até um ano e com conferência de resultado, um horizonte bem menor que o do patrimônio de uma família.
QUANTAS PREVISÕES A SUA CARTEIRA PRECISA ACERTAR?
Howard Marks calculou que cinco previsões encadeadas, cada uma com 67% de chance de acerto, dão 13% de probabilidade de acertar todas. Uma carteira de R$ 10 milhões que depende de cinco previsões como essas, sobre crescimento, inflação, juros, câmbio e bolsa, está nessa conta, com 87% de chance de falhar em algum ponto.
"Há dois tipos de previsores, os que não sabem e os que não sabem que não sabem." – John Kenneth Galbraith, economista, citado por Howard Marks
Antes de uma previsão mexer na carteira de uma família de alto patrimônio, quatro conferências adaptadas dos mandamentos que fecham o livro de Tetlock e Gardner servem de filtro:
- Histórico: quantas previsões o autor já fez por escrito e quantas se confirmaram.
- Número e prazo: a previsão precisa trazer probabilidade e data, para que alguém confira depois.
- Taxa-base: com que frequência eventos parecidos aconteceram no passado, antes de olhar os detalhes do caso atual.
- Tamanho do ajuste: os melhores previsores mudavam a estimativa em passos de poucos pontos, e o ajuste na carteira deveria ter a mesma proporção.
Trocando em miúdos, a carteira precisa funcionar mesmo que a previsão do ano esteja errada.
Se o seu plano para a próxima década depende de acertar a Selic, o dólar e a bolsa do ano que vem, ele depende de um tipo de acerto que os economistas tiveram em 5 de 153 recessões e que faltou à pesquisa Focus em 16 de 21 anos de Selic. Quantas previsões precisam dar certo, em sequência, para a sua carteira entregar o que você planejou para os próximos dez anos?
Se você busca ajuda de um time qualificado e independente para te guiar nesses movimentos de mercado, entre em contato com a Zanella Wealth: zanellawealth.com.br/contato/
