Economia · 23 de setembro de 2026

MERCADOS PREDITIVOS ERRAM MENOS QUE PESQUISAS QUANDO HÁ DINHEIRO EM JOGO

Em 964 pesquisas de cinco eleições, o mercado de apostas ficou mais perto do resultado em 74% dos casos. Veja como Polymarket e Kalshi formam esse preço.

Ninguém perde dinheiro ao responder uma pesquisa eleitoral, e os 60,9% que o Polymarket dá a Flávio Bolsonaro saíram do bolso de gente que perde o que pagou se estiver errada.

MERCADOS PREDITIVOS JÁ COBRAM PREÇO PELA ELEIÇÃO DE 2026

Em 21 de setembro de 2026, o mercado da eleição presidencial brasileira no Polymarket marcava 60,9% de chance para Flávio Bolsonaro e 39% para Luiz Inácio Lula da Silva, com Renan Santos e Jair Bolsonaro abaixo de 1% cada. Lula ficou à frente na maior parte do período desde novembro de 2025 e chegou a 66,5% em 1º de agosto, até Flávio assumir a liderança em setembro.

Flávio e Lula já trocaram de posição sete vezes em 2026

A diferença entre as duas chances mostra o tamanho da virada. Em 1º de agosto, Lula estava 41,9 pontos percentuais à frente, e em 23 de setembro Flávio liderava por 18,4 pontos.

Flávio passou de 41,9 pontos atrás de Lula a 18,4 pontos à frente em 2026

Para um investidor com R$ 5 milhões ou mais que acompanha o risco eleitoral da carteira, o que importa é o mecanismo que produz esse 60,9%. Cada ação do mercado paga US$ 1 se o candidato vencer, e o próprio Polymarket descreve o preço da ação como a probabilidade corrente de o evento acontecer, de modo que uma ação negociada a 20 centavos equivale a 20% de chance.

O prêmio de quem acerta é a diferença entre US$ 1 e o preço pago. O comprador de uma ação de Flávio a 60,9 centavos recebe US$ 1 se ele vencer, um ganho de 39,1 centavos por ação, ou 64% sobre o valor investido. A ação do Não custa cerca de 39,1 centavos e paga US$ 1 se Flávio perder, um ganho de 60,9 centavos, ou 156% sobre o valor investido.

Se Flávio perder, o comprador do Sim fica sem os 60,9 centavos que pagou. O entrevistado de um instituto de pesquisa responde sem custo nenhum e pode dizer o que quiser ao telefone. Essa diferença de incentivo sustenta a tese a favor dos mercados preditivos, e as eleições americanas desde 1988 servem de laboratório para testá-la.

UM DÓLAR DIVIDIDO ENTRE O SIM E O NÃO

A Kalshi, bolsa americana regulada pela CFTC, a comissão federal de mercados futuros dos Estados Unidos, explica a formação de preço com um exemplo. Se o mercado estima em 70% a chance de uma empresa lançar um produto até o fim do ano, o contrato do Sim custa 70 centavos e o do Não custa 30 centavos, porque a bolsa só fecha o negócio quando os dois lados somam US$ 1. Para um investidor com R$ 1 milhão acostumado a derivativos, o contrato lembra uma opção binária, que paga o valor cheio ou zero no vencimento.

O dinheiro do prêmio sai do bolso de quem errou. A Kalshi procura, para cada ordem, outro usuário disposto a ficar com o lado oposto, e o Polymarket afirma que os participantes negociam entre si, nunca contra a plataforma. No Polymarket, cada par de Sim e Não fica garantido por 1 USDC, uma moeda digital atrelada ao dólar, travado no momento do negócio. Na liquidação, esse dólar vai inteiro para o lado vencedor.

Numa casa de apostas tradicional, a própria banca define a cotação, fica com o outro lado da aposta e embute na odd uma margem chamada vigorish, de 4% a 5% nas apostas simples, segundo Michael Mauboussin e Dan Callahan, da Morgan Stanley, no relatório "The Wisdom of Crowds in Markets", de agosto de 2026. Nos mercados preditivos, a plataforma casa as ordens, liquida os contratos e cobra taxa, sem apostar na direção do resultado. A Kalshi cobra uma taxa de transação calculada sobre o ganho esperado do contrato. O Polymarket cobra só de quem aceita uma ordem que já estava parada no livro de ofertas, pela fórmula número de ações × alíquota × preço × (1 − preço), com alíquota de 4% em política, 7% em cripto e zero nos mercados de geopolítica. Pela própria fórmula, a taxa nunca passa da alíquota sobre o valor negociado, e fica mais barata quanto mais caro está o contrato. Numa compra de US$ 1 milhão em contratos de política, o teto é de US$ 40 mil, e num contrato cotado a 90 centavos a taxa cai para cerca de US$ 4 mil.

As duas plataformas chegaram ao mesmo produto por caminhos regulatórios diferentes. O Polymarket pagou multa de US$ 1,4 milhão à CFTC em janeiro de 2022 e teve de bloquear residentes dos Estados Unidos. A Kalshi entrou em disputa judicial com a comissão para listar contratos sobre o controle do Congresso americano e, em 2 de outubro de 2024, o tribunal de apelação de Washington negou o pedido da CFTC para suspender a liberação desses contratos. Em 25 de novembro de 2025, a mesma comissão aprovou a volta do Polymarket ao mercado americano, com acesso intermediado por corretoras registradas.

Os mercados de previsão movimentaram mais de US$ 27,9 bilhões no mundo entre janeiro e outubro de 2025, segundo a Finsiders Brasil, e o esporte respondeu por 80% do volume da Kalshi e 40% do volume do Polymarket entre julho de 2024 e abril de 2026, pelas contas do mesmo relatório da Morgan Stanley. Um investidor com R$ 10 milhões que usa o preço eleitoral como sinal precisa lembrar que a maior parte do dinheiro dessas plataformas vem de apostas esportivas.

O ERRO DE QUEM PAGA PARA OPINAR

A Universidade de Iowa abriu em 1988 o Iowa Electronic Markets, um mercado eleitoral com dinheiro de verdade e aportes de US$ 5 a US$ 500 por participante. Na semana anterior às eleições presidenciais americanas de 1988 a 2000, esse mercado errou a fatia de votos dos candidatos por 1,5 ponto percentual em média, contra 2,1 pontos da pesquisa final do Gallup, segundo o artigo de Kenneth Arrow e coautores publicado na revista Science em 2008.

O mercado de Iowa errou menos que a última pesquisa Gallup

Joyce Berg, Forrest Nelson e Thomas Rietz, da Universidade de Iowa, no artigo "Prediction Market Accuracy in the Long Run", publicado em 2008 no International Journal of Forecasting, ampliaram a comparação para 964 pesquisas de cinco eleições presidenciais, de 1988 a 2004, e o preço do mercado ficou mais perto do resultado final em 74% dos casos. Para um investidor que ajusta uma carteira de R$ 5 milhões meses antes da votação, a vantagem pesa mais no horizonte longo. Com mais de 100 dias de antecedência, o erro médio das pesquisas foi de 4,49 pontos percentuais, contra 2,65 do mercado, e nos cinco dias finais a distância caiu para 1,62 contra 1,20.

Quanto mais longe da eleição, maior a vantagem do mercado

Se você decide a exposição ao Brasil pela manchete da última pesquisa, está usando a ferramenta que errou 4,49 pontos a mais de 100 dias da eleição nesse histórico. Os autores do artigo da Science usam esse retrospecto para pedir aos reguladores americanos uma proteção legal para mercados de pequeno valor voltados à pesquisa.

"A capacidade de grupos de pessoas de fazer previsões é uma ferramenta de pesquisa poderosa, que deveria ficar livre de restrições governamentais desnecessárias." – Kenneth Arrow e coautores, Science

O MESMO PREÇO QUE ACERTOU O FED

Em fevereiro de 2026, os economistas Diercks, Katz e Wright publicaram pelo Federal Reserve uma comparação entre os contratos da Kalshi sobre juros, inflação e emprego e as duas referências que o mercado financeiro já usava, o consenso de analistas da Bloomberg e os contratos futuros de fed funds. Desde 2022, a mediana e a moda da distribuição da Kalshi acertaram todas as decisões do FOMC na véspera da reunião, com erro médio zero, contra 0,01 ponto percentual dos futuros.

Na inflação ao consumidor americano, o erro médio da Kalshi foi de 0,063 ponto contra 0,081 do consenso da Bloomberg. No núcleo da inflação, as duas fontes empataram em 0,070, e no desemprego a Kalshi errou 0,107 contra 0,109 dos analistas. Numa carteira de R$ 2 milhões com títulos americanos, a inflação mensal pesa na expectativa de juros, e a Kalshi entregou essa leitura com erro menor que o do consenso.

A Kalshi errou menos que os analistas na inflação americana

Para uma carteira de R$ 10 milhões com peso relevante em renda fixa, a distribuição inteira de probabilidades interessa mais que a mediana, porque mostra quanto o mercado paga por cada faixa de corte de juros ou de inflação. A Kalshi aceita até US$ 7 milhões de exposição por mercado, limite muito acima dos US$ 500 por participante do mercado de Iowa.

A PESQUISA BEM TRATADA CONTINUA NO JOGO

Os cientistas políticos Robert Erikson, da Universidade Columbia, e Christopher Wlezien, da Universidade Temple, refizeram, no estudo "Are Political Markets Really Superior to Polls as Election Predictors?", de 2005, a comparação com o mesmo mercado de Iowa e chegaram a outra conclusão. Contra a pesquisa crua, o mercado vence com folga, com erro médio de 2,41 pontos contra 4,46 ao longo de 951 dias de cinco eleições. O resultado muda quando as pesquisas são descontadas, ou seja, ajustadas pelo comportamento histórico das intenções de voto até a eleição. Nesse formato, o erro das pesquisas cai para 2,13 pontos, e a média de sete dias das projeções chega a 1,7, abaixo dos 2,41 pontos do mercado e melhor que ele em 63% dos dias.

Pesquisa ajustada chega a errar menos que o mercado

"Quando o mercado sustenta uma visão da eleição diferente das projeções das pesquisas, ele tem um pouco mais de chance de estar errado do que certo." – Robert Erikson e Christopher Wlezien

A eleição americana de 2024 reforçou a dúvida. Em estudo de dezembro de 2025, Joshua Clinton e TzuFeng Huang, cientistas políticos da Universidade Vanderbilt, analisaram mais de 2.500 mercados políticos em quatro plataformas, que movimentaram US$ 2,4 bilhões de 1º de setembro até a votação, e mostraram que 93% dos mercados da PredictIt acertaram melhor que o acaso na véspera, contra 78% na Kalshi e 67% no Polymarket, a plataforma que concentrou US$ 2,1 bilhões desse volume. Em 62 dos 65 dias antes da eleição, a combinação de plataformas permitia comprar os contratos de Harris e de Trump por menos de US$ 1 somados, com lucro garantido para quem montasse as duas pontas.

Em 2024, a maior plataforma acertou menos

O mesmo estudo contou US$ 198 milhões negociados em mercados que acertaram menos que cara ou coroa. Para um investidor com R$ 2 milhões em ativos brasileiros, a consequência prática é tratar o preço do Polymarket como um dado a mais, ao lado de uma média de pesquisas bem ajustada, e nunca como oráculo.

UM FRANCÊS COM US$ 85 MILHÕES DE LUCRO

Em outubro de 2024, um trader francês conhecido como Théo usou quatro contas no Polymarket para acumular US$ 26,63 milhões em compras líquidas de Trump, 15,1% de todo o dinheiro novo que entrou nesse contrato no mês. Ele lucrou cerca de US$ 85 milhões, segundo o relatório da Morgan Stanley. Kwok Ping Tsang, da Virginia Tech, e Zichao Yang, da Universidade de Economia e Direito de Zhongnan, na China, que reconstruíram os registros do Polymarket na blockchain em estudo de setembro de 2026, calcularam que bastavam US$ 9,1 milhões em ordens para mover a probabilidade de Trump em 5 pontos percentuais naquele mês.

Se você lê o preço do Polymarket como a opinião de milhões de apostadores ao calibrar uma carteira de R$ 10 milhões, está ignorando que as 20 maiores contas somaram US$ 89,4 milhões em compras líquidas de Trump naquele outubro, 50,68% do fluxo total. O volume exibido pela plataforma exige desconto, porque ela cria e extingue ações dentro das negociações comuns. A contagem ingênua registrou US$ 958 milhões no contrato de Trump em outubro de 2024, contra US$ 391 milhões de giro, e o mesmo estudo estima uma inflação de cerca de 2,5 vezes no volume do ciclo eleitoral.

O volume exibido é mais que o dobro do giro

Marcos Cardozo e José Ignacio Rivero-Wildemauwe, da Universidad Católica del Uruguay, analisaram 588 milhões de transações no Polymarket entre novembro de 2022 e março de 2026, em estudo de setembro de 2026. As compras feitas abaixo de 10 centavos perderam 19,3 centavos por dólar investido, e as compras acima de 90 centavos ganharam 0,83 centavo. Na tela de 21 de setembro, Renan Santos e Jair Bolsonaro aparecem abaixo de 1%, dentro da faixa de preço em que esse histórico registra a maior perda. Na soma de toda a plataforma, 69% dos 2,4 milhões de usuários estão no prejuízo, e o 1% de usuários com maior ganho fica com 77% do lucro, segundo o relatório da Morgan Stanley.

Apostar no azarão custou 19,3 centavos por dólar

QUAL PREÇO VAI PESAR NA SUA LEITURA DE 2026?

Em 24 de abril de 2026, 27 plataformas de mercados preditivos foram bloqueadas no Brasil, e as regras do Conselho Monetário Nacional sobre o tema entraram em vigor em 4 de maio. O país passou a fazer parte do grupo de mais de 50 países com proibição ou restrição a esse tipo de mercado.

"Isso tem cara, focinho e nariz de aposta" – Régis Dudena, secretário de Reformas Econômicas

A CVM autorizou a B3 a lançar seis contratos de eventos atrelados ao Ibovespa, ao dólar e ao bitcoin, com estreia prevista para 27 de abril de 2026, e a eleição ficou fora dessa lista. Uma carteira de R$ 5 milhões concentrada em ativos brasileiros carrega uma aposta única no resultado de outubro, o mesmo problema de concentração que aparece no estudo sobre a carteira de 500 ações que se comporta como 46 apostas.

O preço do Polymarket continua público para qualquer investidor, e o histórico acadêmico mostra que ele chega mais cedo perto do resultado do que a pesquisa crua, embora a pesquisa bem ajustada dispute de igual para igual.

Se você busca ajuda de um time qualificado e independente para te guiar nesses movimentos de mercado, entre em contato com a Zanella Wealth: zanellawealth.com.br/contato/

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