Economia · 4 de novembro de 2026

MID TERM NOS EUA: COMO O S&P 500 REAGIU NOS ÚLTIMOS 150 ANOS?

Os democratas venceram Câmara e Senado nas eleições de meio de mandato. Como bolsa, juros e dólar reagiram e o que 150 anos de S&P 500 mostram.

Os democratas levaram as duas Casas do Congresso, a combinação que o estrategista do Bank of America associava a uma queda de 10% nas ações americanas.

OS DEMOCRATAS TOMARAM CERCA DE 30 DISTRITOS E PELO MENOS 7 CADEIRAS DO SENADO

A eleição de meio de mandato de 3 de novembro de 2026 deu aos democratas o controle da Câmara dos Deputados e do Senado, no segundo ano do segundo mandato de Donald Trump. Os republicanos tinham chegado à votação com 219 deputados contra 214 democratas, e com 53 senadores contra 45 democratas e 2 independentes. Na manhã de 4 de novembro, a Associated Press já contava 228 deputados democratas eleitos, 10 acima dos 218 que formam a maioria, e a CNBC projetava pelo menos 245, com cerca de 30 distritos tirados dos republicanos. No Senado, os democratas tomaram dos republicanos pelo menos 7 cadeiras, na Carolina do Norte, na Carolina do Sul, em Ohio, em Iowa, no Texas, no Kansas e no Maine, e somaram pelo menos 51 senadores, com o Alasca e o Mississippi ainda sem resultado. Para um investidor de alto patrimônio com R$ 5 milhões em ações e títulos americanos, o placar define quem controla orçamento, impostos e nomeações para o Federal Reserve na segunda metade do mandato.

Na véspera, o modelo de Dave Manuel, que roda 10 mil simulações, dava 93% de chance de maioria democrata na Câmara, com 234 cadeiras no resultado central, e 74% no Senado, e o Silver Bulletin, de Nate Silver, já mostrava em 6 de outubro 92,9% e 73,9%. Os mercados de previsão, plataformas em que investidores apostam dinheiro no resultado da eleição, davam menos chance aos democratas no Senado, com 64% no Kalshi em 21 de outubro, e antes da apuração o Polymarket e o Kalshi davam cerca de 94% aos democratas na Câmara e de 75% a 78% no Senado. Os democratas também ganharam os governos da Geórgia, de Ohio, de Iowa e do Texas, onde Gina Hinojosa derrotou o governador Greg Abbott.

Os modelos davam mais de 90% de chance aos democratas na Câmara e de 64% a 74% no Senado

Ou seja, a apuração confirmou a Câmara que modelos e mercados já esperavam e deu aos democratas um Senado menos garantido.

Entre 1934 e 2022, o partido do presidente perdeu cadeiras na Câmara em 20 das 23 eleições de meio de mandato, com média de 27 deputados a menos, e no Senado em 15 das 23, com média de 3 senadores a menos, segundo a série do American Presidency Project, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara. As maiores perdas vieram em 1938, com 72 cadeiras, em 2010, com 63, em 1946, com 56, e em 1994, com 54, e só 1934, 1998 e 2002 deram ganho ao partido do presidente na Câmara. Para o investidor com um patrimônio relevante aplicado nos EUA, a derrota republicana de 2026 repete um padrão de quase um século.

O partido do presidente perdeu cadeiras na Câmara em 20 das 23 eleições de meio de mandato desde 1934

Em outras palavras, perder a Câmara na metade do mandato é o que quase sempre acontece com o partido que ocupa a Casa Branca.

O DOW JONES SINALIZAVA ALTA DE 912 PONTOS NA MANHÃ SEGUINTE À ELEIÇÃO

Durante a apuração, na noite de 3 de novembro, os contratos futuros das bolsas americanas, negociados antes da abertura do pregão, caíram até 3%, e o Nikkei, no Japão, perdeu mais de 4% ao longo do pregão e fechou em queda de 1,42%. Por volta das 8h da manhã de 4 de novembro, horário de Nova York, o futuro do Dow Jones subia 912 pontos, ou 1,75%, o do S&P 500 subia 0,8%, o índice do dólar (DXY) caía 0,39% e o ouro subia 2,9%, para cerca de US$ 4.043. A taxa do título de 10 anos do Tesouro americano estava em 4,93%, quase estável. Um investidor com R$ 5 milhões em ações americanas que vendesse durante a apuração teria saído perto da menor cotação da noite, que no Nasdaq-100 foi a mais baixa desde 30 de julho.

Na manhã seguinte à eleição, o ouro subia 2,9% e o índice do dólar caía 0,39%

Lori Calvasina, chefe de estratégia de ações americanas do RBC Capital Markets, viu na queda da madrugada a continuação da venda de ações de inteligência artificial e de grandes empresas de crescimento, porque o futuro do Russell 2000, índice de empresas menores, resistiu. Tai Hui, estrategista-chefe para a Ásia-Pacífico do J.P. Morgan Asset Management, atribuiu a maior parte do movimento à desconfiança com a inteligência artificial acumulada nas três ou quatro semanas anteriores.

"A recuperação sugere que os investidores ainda não estão prontos para abandonar a estratégia de comprar na queda." – Charu Chanana, estrategista-chefe de investimentos da Saxo

Sendo assim, a manhã seguinte desfez a queda da apuração, e os analistas ligaram a maior parte da oscilação às ações de inteligência artificial.

A BOLSA AMERICANA SUBIU 4% NOS SEIS MESES ANTES DA URNA E 14% NO ANO SEGUINTE

Nos 12 meses anteriores às eleições de meio de mandato, as ações americanas renderam em média 2,9%, contra 8,9% na média de todos os anos entre 1900 e 2025, segundo a equipe de pesquisa do U.S. Bank. O J.P. Morgan Asset Management mediu o mesmo efeito de outro jeito e encontrou retorno médio de 9,2% no S&P 500 nos anos dessas eleições desde 1937, contra 13,3% nos demais, com os três primeiros trimestres levemente negativos e alta média de 6,6% no quarto trimestre. Numa carteira de R$ 5 milhões em ações americanas, a diferença de 6 pontos entre 2,9% e 8,9% equivaleria a R$ 300 mil num ano. Em 2026, o S&P 500 acumulava alta de 12,3% até agosto, acima da média dos anos de eleição de meio de mandato.

Os anos de eleição de meio de mandato renderam menos que a média nos dois estudos

Na série de Robert Shiller, da Universidade Yale, que o Motley Fool organizou com 38 eleições desde 1874, o S&P 500 subiu em média 4% nos seis meses anteriores à votação, 0,5% no mês seguinte, 6% em três meses, 10% em seis meses e 14% em 12 meses, com alta em 32 dos 38 períodos de 12 meses, contra média de 11% em qualquer período de 12 meses desde 1871. Sobre R$ 2 milhões em ações americanas, a diferença de 3 pontos entre 14% e 11% somaria R$ 60 mil em um ano.

Desde 1874, o S&P 500 subiu em média 14% nos 12 meses após a eleição de meio de mandato

Desse modo, a média histórica favorece o investidor que atravessa o período eleitoral aplicado, porque a maior parte do ganho aparece nos meses que seguem a votação.

A Longview Economics cruzou a maior queda do S&P 500 antes de cada eleição com o retorno dos 12 meses seguintes, de 1986 a 2022. Em 2022, o índice caiu até 25,4% antes de novembro e subiu 13,6% no ano seguinte, e em 2002, depois de uma queda de 33,8%, subiu 14,9%. Na série completa da mesma casa, desde 1926, só 1930 e 1938 terminaram no negativo na janela de 12 meses posterior à eleição, e o retorno médio ficou em 13,6%. Na série de Shiller, 1938 fechou com alta de 1,4%, e as piores janelas foram as de 1906, com queda de 33,7%, e de 1930, com queda de 33,3%.

Se você reduziu ações americanas em 2022, esperando a eleição passar, pagou caro por isso. Um investidor com R$ 10 milhões no S&P 500 no dia da votação daquele ano que tivesse vendido tudo abriria mão de uma alta de 13,6% nos 12 meses seguintes, o equivalente a R$ 1,36 milhão antes do efeito do câmbio.

Mesmo depois de quedas de até 33,8%, o S&P 500 subiu nos 12 meses seguintes a todas as eleições desde 1986

Logo, vender durante a queda anterior à eleição custou, nessas duas ocasiões, a recuperação dos meses seguintes.

O ING PROJETAVA O TÍTULO DE 10 ANOS PERTO DE 5,50% COM OS DEMOCRATAS NAS DUAS CASAS

Em 21 de outubro, o Polymarket dava 63% de chance para a vitória democrata nas duas Casas, 28% para o Congresso dividido e 11% para a manutenção da maioria republicana, e a combinação mais provável foi a que saiu da urna. Para esse resultado, o ING projetava, num estudo de 15 de outubro de James Knightley, Padhraic Garvey, Chris Turner e outros economistas da casa, a taxa do título de 10 anos perto de 5,50% e o dólar caindo de forma moderada, e Michael Hartnett, estrategista do Bank of America, uma queda de 10% ou mais nas ações americanas. Para um investidor com R$ 5 milhões e uma parte relevante em títulos do Tesouro americano, uma alta da taxa de 10 anos até os 5,50% do ING reduziria o preço desses títulos.

Duas semanas antes da eleição, o Polymarket dava 63% de chance aos democratas nas duas Casas

Com o Senado, os democratas ganham poder para travar indicações de Trump à Suprema Corte, aos tribunais federais e à diretoria do Fed, e o J.P. Morgan calcula que a briga pelo teto da dívida, que a lei fixa em US$ 41,1 trilhões, volte entre meados de 2027 e o início de 2028. A Câmara democrata pode abrir processo de impeachment, que depende de 67 votos no Senado para condenar o presidente. Stephen Brown, economista-chefe para a América do Norte da Capital Economics, lembra que o partido não tem no Senado votos suficientes para impedir que a minoria trave as votações e que Trump mantém o poder de veto, e Tai Hui, do J.P. Morgan, aponta que tarifas, comércio e política externa ficam com o presidente.

Na prática, o Congresso democrata passa a negociar orçamento e nomeações com Trump, que segue decidindo sobre tarifas.

ING E MONEX DIVERGEM SOBRE O DÓLAR DEPOIS DA URNA

Chris Turner, do ING, vê o Congresso democrata como levemente negativo para o dólar, por causa do efeito sobre as ações de inteligência artificial e da chance de uma paralisação longa do governo a partir de meados de 2027. Ele diz que não acompanharia a queda do dólar no dia seguinte à eleição, já que a economia americana continua resistente. O Bank of America vê essa queda como um revés de curto prazo, e Jesper Koll, da Monex Group, vê no resultado um efeito positivo para o dólar, pela percepção de mais independência do Fed. Para a parcela americana de uma carteira de R$ 5 milhões, cada um desses movimentos muda o valor em reais dos ativos.

"Se os juros mais altos refletirem cada vez mais o risco fiscal ao invés de um crescimento mais forte dos EUA, um dólar estruturalmente mais fraco pode se tornar a válvula de escape para a piora da credibilidade fiscal americana." – Elias Haddad, Brown Brothers Harriman

O Escritório de Orçamento do Congresso projeta a dívida americana em poder do público em 120% do PIB até 2036, o financiamento do governo federal vence em 11 de dezembro, e a paralisação de 43 dias no fim de 2025 tirou 1 ponto percentual do crescimento do PIB do quarto trimestre daquele ano, segundo o ING. Com a inflação ao consumidor em 3,7% em setembro, os contratos de juros futuros, que embutem a expectativa dos investidores para a taxa do Fed, davam em 21 de outubro entre 88% e mais de 90% de chance de o Fed subir os juros em dezembro. Para uma família com R$ 10 milhões, dos quais R$ 3 milhões em títulos do Tesouro americano, a decisão do Fed em dezembro mexe com o preço desses títulos e com o valor deles em reais.

Traduzindo, a direção do dólar depois da urna depende de o mercado atribuir a alta dos juros ao crescimento da economia ou ao gasto do governo acima da arrecadação.

A FIRST SOLAR SUBIU 8,5% E A SPACEX CAIU 6% DEPOIS DA VITÓRIA DEMOCRATA

Entre 2002 e 2022, a tecnologia liderou os ganhos nos 12 meses posteriores às eleições de meio de mandato, e o consumo discricionário, como varejo e lazer, e os serviços de comunicação vieram em seguida, segundo a Ameriprise. Os setores defensivos e financeiros ficaram atrás nesses mesmos períodos. Na média desses seis ciclos, uma carteira de R$ 5 milhões concentrada em tecnologia teria rendido mais que uma de mesmo valor em setores defensivos, que oscilam menos.

"As eleições de meio de mandato nunca são de fato eleições macroeconômicas. Elas tratam de setores e de ações específicas." – Dan Clifton, chefe de pesquisa de políticas públicas da Baird Strategas

Antes da abertura de 4 de novembro, a First Solar subia 8,5% e a empresa de planos de saúde Molina Healthcare, 6,3%, com a aposta de que o Congresso democrata retome subsídios para energia limpa e para o seguro de saúde da população de baixa renda, e a SpaceX tinha caído 6% nas negociações da noite. Tapas Strickland, estrategista-chefe da Moomoo ANZ, lembra que o Texas e a Geórgia, as duas disputas para governador que ele acompanhava e que os democratas venceram, somam cerca de um terço dos gastos e projetos de data centers de inteligência artificial nos EUA. Stephen Juneau, economista do Bank of America, diz que as novas políticas podem tornar a expansão da inteligência artificial mais lenta e mais cara.

Dito de forma simples, as ações de energia limpa, de saúde e de infraestrutura de inteligência artificial foram as primeiras da carteira americana a reagir ao resultado.

A BOLSA AMERICANA JÁ CAIU 31,8% NO ANO ANTERIOR A UMA ELEIÇÃO DE MEIO DE MANDATO

Nos 12 meses que antecederam a eleição, as ações americanas caíram 31,8% em 1974, 29,9% em 1930, 17,6% em 1962, 15,1% em 2002 e 14,6% em 2022, segundo o U.S. Bank. A mesma equipe testou se o controle do Congresso por um só partido muda o resultado e encontrou retorno trimestral médio de 2,42% sob governo unificado, com Casa Branca, Câmara e Senado nas mãos do mesmo partido, contra 2,17% sob poder dividido desde 1948. Pelos testes da própria equipe, essa diferença é pequena demais para se distinguir do acaso. Se você tem um patrimônio relevante nos EUA e conta com a média de 14% para os próximos 12 meses, as quedas de 1906 e de 1930 mostram que ela não garante nada.

Nos 12 meses antes da eleição, a bolsa americana chegou a cair 31,8%

O J.P. Morgan calcula retorno anual médio de 16,3% sob governo republicano unificado desde 1937, contra 9,4% com presidente republicano e Congresso dividido, e atribui o desempenho passado ao contexto econômico. Já a série de Shiller desde 1874 mostra o governo republicano unificado como a única combinação com média negativa, por causa das quedas de 1902, 1906 e 1930. A própria média pós-eleição muda com o período escolhido, de 12,4% no estudo do U.S. Bank entre 1900 e 2025 a 17,5% no da mesma casa desde 1980, passando por 16,6% no do BNY desde a década de 1950.

Cada estudo chega a uma média diferente, de 12,4% a 17,5%, conforme o período

Isso quer dizer que o retorno das ações americanas depois da eleição depende sobretudo de lucros, emprego e inflação.

TRÊS ANOS DE ALTA MUDARAM O PESO DAS AÇÕES AMERICANAS NA CARTEIRA

O S&P 500 chegou a esta eleição depois de altas de 24% em 2023, 23% em 2024 e 16% em 2025. Numa carteira de R$ 10 milhões montada há três anos com uma parte relevante em ações americanas, essa sequência teria elevado o peso delas na carteira.

O S&P 500 subiu 24%, 23% e 16% nos três anos antes desta eleição

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