Carta Mensal – Relatório de Alocação Março 2025

O presidente Donald Trump, com suas muitas declarações, tem nos oferecido uma variedade de temas a serem compartilhados, assim como muita volatilidade nos mercados. Na carta deste mês discorremos sobre o movimento de rotação e ativos que vem ganhando destaque.

Movimentações recentes do Ouro 

No dia 31 de março de 2025, o ouro alcançou um novo recorde histórico, atingindo US$3.127 por onça troy, refletindo uma valorização de +19% no acumulado do ano e +38% nos últimos 12 meses. Esse movimento reforça a busca dos investidores por ativos de proteção, impulsionada por um cenário global de incertezas.

O destaque do mês, inclusive, fica por conta das mineradoras de ouro, como observado no desempenho do ETF GDX que acumula uma valorização de mais de 30% no ano e de quase 15% no mês de março. Os custos de produção estão significativamente abaixo do preço do metal, e é válido lembrar que ainda há um grande espaço de apreciação da classe em relação ao seu topo histórico, apurado em 2011.


Legenda: Gráfico mostrando a valorização do ouro (onça troy) em dólares nos últimos 12 meses.

Principais fatores impulsionando a alta:

  • Incerteza econômica e comercial: a possibilidade de tarifas mais rígidas nos EUA tem elevado a demanda por ativos seguros.
  • Dólar mais fraco: a perda de força da moeda americana frente às principais moedas em 2025 tem favorecido a valorização do ouro.
  • Expectativas sobre política monetária: a perspectiva de cortes na taxa de juros pelo Federal Reserve reduz o custo de oportunidade de manter o metal.
  • Tensões geopolíticas: conflitos internacionais continuam a sustentar a busca por segurança.
  • Demanda física crescente: estoques elevados nos EUA, forte acumulação pela China, que adicionou mais de 1.200 toneladas na última década e recordes de exportação da Suíça, refletindo o crescente interesse global pelo metal.

Países com as maiores reservas de Ouro em dezembro de 2024:


Fonte: Bestbrokers, WGC, IMF International Financial Statistics

O ouro continua a consolidar seu papel como um dos principais ativos de proteção em tempos de incerteza. O recorde histórico alcançado recentemente reflete a busca dos investidores por segurança diante de um cenário econômico e geopolítico desafiador, impulsionado por fatores como a política monetária dos EUA, a volatilidade cambial e os riscos globais.

Além do movimento de preços, os dados sobre reservas globais evidenciam o papel estratégico do ouro na composição dos ativos de países e instituições. Os Estados Unidos lideram com ampla vantagem, seguidos por Alemanha, Itália e França, enquanto economias emergentes como China, Índia e Turquia vêm ampliando suas reservas, reforçando o ouro como um instrumento essencial de diversificação e estabilidade financeira.

Diante desse cenário, a trajetória futura do metal dependerá da evolução da política monetária global, das tensões comerciais e da demanda por ativos reais. Caso os bancos centrais mantenham o ritmo de compras e a incerteza persista, novos recordes podem ser estabelecidos nos próximos meses.

  • Projeção de retração do PIB dos EUA liga sinal de alerta

Em 2025, o modelo GDPNow do Federal Reserve de Atlanta, que fornece uma estimativa em tempo real do crescimento do PIB dos EUA com base em dados econômicos recentes, trouxe um alerta significativo para o primeiro trimestre. Inicialmente, as projeções indicavam um crescimento de cerca de 3% em janeiro, mas, a partir do final de fevereiro, os números caíram acentuadamente, apontando para uma retração de 3% até o início de abril. Essa mudança reflete uma piora considerável na percepção sobre a economia americana.

Em contrapartida, o consenso Blue Chip, que agrega as estimativas de diversos analistas, manteve uma visão mais estável, projetando um crescimento entre 1% e 2% ao longo do período, sem oscilações expressivas. Há também uma estimativa alternativa, chamada “Gold adjusted GDPNow”, que incorpora ajustes para suavizar flutuações extremas e caiu de forma menos intensa, estabilizando-se próxima de 0% no final do trimestre.

Essa divergência entre o GDPNow e o Blue Chip levanta questionamentos. Será que o modelo do Fed está captando mais rapidamente uma deterioração nos indicadores econômicos, como produção industrial e consumo, que já mostram sinais de fraqueza? Ou o mercado ainda não ajustou suas expectativas à nova realidade? Independentemente da resposta, o cenário exige atenção.

Para o investidor, esse movimento é relevante. Uma eventual confirmação dessa retração no PIB americano pode impactar as expectativas de juros e os fluxos de capital globais, considerando o peso da economia dos EUA nos mercados internacionais. Além disso, abre-se espaço para debates sobre uma possível recessão técnica, o que poderia pressionar ativos de risco, como as ações americanas, que já operam com múltiplos elevados. Diante disso, recomendamos monitorar os próximos dados econômicos e avaliar ajustes em carteiras com alta exposição a ações americanas, dado o risco de uma recessão técnica. Os dados do segundo trimestre serão cruciais para confirmar ou ajustar essas projeções.

  • Novo ciclo nos mercados?

Também estamos presenciando neste ano um movimento de rotação relevante nos mercados: fluxo forte de capital emigrando dos Estados Unidos para mercados desenvolvidos e emergentes. O que justifica esse movimento? Além dos múltiplos que, reiteradamente, comentamos estarem elevados nas principais bolsas e índices americanos, dados de crescimento econômico na Europa reacenderam o interesse de alocação em outros mercados. 

No conteúdo dos gráficos abaixo, vimos que a relação entre o SPY, ETF que replica o S&P500 por valor de mercado e o EEM, de mercados emergentes, bem como o EFA, dos desenvolvidos, está muito favorável aos Estados Unidos desde 2010, e pode parecer difícil projetar um novo ciclo de mercado diante desse histórico recente dos últimos 15 anos. Em 2025, no entanto, vimos o DXY indicando uma apreciação das principais moedas globais (Euro, Libra, Iene, Dólar Canadense, Franco Suíço e Coroa Sueca) frente ao Dólar Americano, com o reflexo de correlação muito forte junto ao S&P500. Por óbvio, quando o dólar perde força, o S&P500 também tende a piorar sua performance, fato observado neste primeiro trimestre do ano.

Isso também justifica uma valorização no mercado doméstico, no Brasil: não tivemos mudanças estruturais relevantes por aqui no cenário macro, capazes de explicar o motivo da valorização de nossa bolsa. Em live realizada em janeiro deste ano (você confere por meio desse link), ressaltamos o quanto estávamos com múltiplos muito atrativos, inclusive comparando com pares emergentes, e que demandamos de um ingresso  de capital estrangeiro para voltar a ver a bolsa performando. 

De fato, observamos um saldo positivo de mais de 14 bilhões de reais desse investidor estrangeiro nesse primeiro trimestre, considerando aportes, resgates e participações em ofertas subsequentes. O volume de resgate acumulado do estrangeiro em 2024 indicou a quantia de mais de 20 bilhões de reais. O Brasil, também no contexto de mercado emergente, se beneficia desse movimento de rotação observado no ano.


Legenda: Desempenho relativo do ETF EEM (Mercados Emergentes) em relação ao SPY. Nas barras abaixo, estão as variações mensais.


Legenda: Desempenho relativo do ETF EFA (Mercados Desenvolvidos ex-EUA e Canadá) em relação ao SPY. Nas barras abaixo, estão as variações mensais.

Quando atentamos às barras inferiores tanto do gráfico de mercados emergentes sobre o S&P500, quanto dos desenvolvidos comparados ao principal índice acionário do mundo, concluímos que março foi um mês histórico de rotação no século. Desde o início dos anos 2000 não tínhamos um desempenho tão forte do mundo versus Estados Unidos, também ancorado na projeção do PIB dos Estados Unidos apresentada acima.

  • Ciclo atual do Bitcoin Pós-Halving

O halving do Bitcoin representa um dos eventos mais significativos dentro do ecossistema das criptomoedas, reduzindo a recompensa dos mineradores e, consequentemente, impactando a oferta disponível no mercado. Historicamente, esse mecanismo tem sido um catalisador para ciclos de valorização, seguidos por períodos de consolidação e correção.

O gráfico abaixo ilustra a evolução do preço do Bitcoin (em escala logarítmica) nos ciclos de 2012 (azul claro), 2016 (verde), 2020 (roxo) e 2024 (preto – ciclo atual), analisando um período de 1.450 dias após cada halving.


Legenda: Preço do Bitcoin Pós-Halving.

Diante desse comportamento, temos os seguintes padrões históricos:

  • Fase de acumulação: geralmente observada nos primeiros 300 a 500 dias pós-halving.
  • Alta parabólica: marcada por uma valorização expressiva do ativo.
  • Correção significativa: momento de ajuste após a euforia do ciclo.

Até o momento, o Bitcoin segue um padrão semelhante aos ciclos anteriores, com o preço variando entre US$80.000 a US$100.000 nos últimos meses. A posição atual (dentro do círculo vermelho) sugere um período de consolidação, comum após uma alta inicial, conforme observado em ciclos passados. Contudo, o avanço do mercado institucional no ecossistema de criptomoedas pode modificar a dinâmica deste ciclo, resultando em uma acumulação mais prolongada.

Apesar dessa nova presença institucional, o impacto do halving sobre a oferta do Bitcoin permanece inalterado. O choque entre oferta e demanda desse evento tende a impulsionar a próxima fase de valorização (alta parabólica). Diante desse cenário, monitoramos e reforçamos nossa tese de investimento em Bitcoin, mantendo uma visão estratégica de longo prazo para o ativo.

Carta elaborada por Renan Zanella, CFA, Lucas Viero De Conti, CNPI, Lucas Pessoa, CEA e Thomaz Santos.

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Renan Zanella, CFA
Renan Zanella, CFA
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