3,8 MILHÕES DE VOOS E UMA FILA DE 5 ANOS: O QUE A AVIAÇÃO EXECUTIVA DIZ SOBRE O DINHEIRO GRANDE

Uma frota que cresce 17% ao ano, filas de espera que chegam a cinco anos e um ecossistema que conecta São Paulo, Miami e Punta del Este apontam para uma mudança estrutural na forma como grandes fortunas se movem.

QUANDO A FILA DE ESPERA VALE MAIS QUE O DESTINO

Em 2025, segundo a Forbes, o mundo registrou 3.878.836 voos de jatos privados. O número representa um avanço de 4,6% sobre 2024 e de 34% sobre os níveis pré-pandemia de 2019. O setor superou o pico anterior e reescreveu o recorde em meio a uma confluência rara: a população global de consumidores ultrarricos subiu de 300 mil para mais de 520 mil pessoas, segundo a mesma fonte, e os lucros corporativos globais acumularam alta de 94%, de acordo com o Bureau of Economic Analysis.

Para quem administra patrimônio acima de R$ 5 milhões, o dado mais relevante está na existência e extensão da fila de espera. As fabricantes Gulfstream e Bombardier trabalham com lista de espera de 18 a 30 meses para os modelos mais caros, segundo a Forbes. No Brasil, segundo a Abag (Associação Brasileira de Aviação Geral), a espera em algumas categorias chega a cinco anos, conforme reportado pela NeoFeed. A demanda ultrapassou a capacidade de produção, e o acesso ao transporte executivo se tornou, em si mesmo, um ativo de escassez.

O BRASIL QUE DECOLA À PARTE

A frota brasileira de aeronaves executivas atingiu 11.239 unidades em novembro de 2025, segundo dados da Avantto. O segmento de jatos cresceu 17% em um ano, totalizando 1.140 aeronaves, a maior taxa de expansão já registrada. O país consolidou a segunda maior frota executiva do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

O investidor com patrimônio elevado que acompanha os dados da Embraer percebe a dimensão do ciclo. Segundo a Airway, a fabricante brasileira entregou 155 jatos executivos em 2025, um recorde histórico que superou as 145 entregas de 2010. O Phenom 300 respondeu por 72 dessas unidades, e os Praetor 500 e 600 somaram 55 entregas. Desde 2009, o Phenom 300 acumula 906 unidades entregues globalmente, próximo de atingir a marca de mil.

A projeção para o mercado latino-americano, segundo levantamento da Mordor Intelligence citado pela CNN Brasil, aponta para US$ 1,31 bilhão até 2029, uma alta de 103% sobre os US$ 640 milhões estimados em 2024. Para famílias com patrimônio relevante, a escala dessa expansão influencia diretamente a disponibilidade de serviços e a precificação de ativos ligados à infraestrutura aeronáutica.

Rogério Andrade, CEO da Avantto, descreveu o fenômeno ao posicionar a aviação executiva como ferramenta de desenvolvimento econômico que conecta regiões e reduz distâncias para empresas em expansão.

O ECOSSISTEMA QUE CONECTA TRÊS FUSOS

A JHSF construiu um corredor de mobilidade que liga São Paulo a Miami e Punta del Este. O ponto de partida é o Aeroporto São Paulo Catarina, em São Roque (SP), que já conta com 16 hangares distribuídos em 50 mil metros quadrados e 80 mil metros quadrados adicionais de pátio. Segundo o Seu Dinheiro, a empresa adquiriu a Embassair, operação de aviação executiva (FBO) localizada no Opa-Locka Executive Airport, em Miami, por meio do fundo JHSF Capital FBOs Fund LP.

“O FBO em Miami eleva o nível de serviço e garante uma experiência mais completa ao cliente, do embarque no Brasil até a chegada nos Estados Unidos” — Augusto Martins, CEO da JHSF

Para o investidor com patrimônio acima de R$ 10 milhões, isso é bastante relevante. A JHSF registrou lucro líquido de R$ 304,5 milhões no terceiro trimestre de 2025, uma alta de 117,5% sobre o mesmo período do ano anterior, segundo o Times Brasil. Os ativos totais da empresa somam R$ 18,6 bilhões, segundo o Seu Dinheiro. O modelo combina aeroporto, hotelaria de alto padrão (Fasano), imóveis e entretenimento, capturando o mesmo cliente em diferentes pontos de contato geográfico.

O Itaú Private completou o circuito ao assumir o naming rights do terminal privado no Aeroporto de Punta del Este, segundo a Brasilturis. O Terminal Itaú Private Bank oferece duty free, fast pass na imigração, transfer executivo até a aeronave e atendimento prévio por WhatsApp. “Temos a proposta de ser o private banking global para latino-americanos, procurando oferecer serviços e experiências exclusivas tanto em seus países de origem quanto nos destinos que costumam frequentar”, afirmou Fernando Beyruti, head global do Itaú Private.

JATOS MAIORES, PATRIMÔNIOS MAIS EXIGENTES

A composição da frota brasileira mudou. Segundo Michael Francis, head global de Aircraft Financing do Citi, em reportagem da Bloomberg Línea, “a quantidade de aviões maiores está se tornando uma representação maior da frota total.” No primeiro semestre de 2025, das 62 novas aeronaves registradas no Brasil, 17 eram jatos médios e 6 eram jatos pesados, segundo dados da Anac citados pela Bloomberg Línea.

O Gulfstream G-700, com alcance de 14.816 quilômetros e capacidade para sete leitos, foi vendido por US$ 80 milhões durante o Catarina Aviation Show, segundo a CNN Brasil. Para famílias UHNW que transitam entre continentes, essa categoria de aeronave resolve o problema de voar direto de São Paulo a qualquer capital europeia sem precisar de escala.

O financiamento acompanha a migração para jatos maiores. Segundo a Bloomberg Línea, as transações já são frequentemente denominadas em dólar americano, o que vincula o custo de propriedade à performance da moeda local frente ao câmbio. Um patrimônio de R$ 5 milhões que inclui exposição a uma aeronave financiada em dólar carrega, por definição, risco cambial embutido na estrutura de mobilidade.

A NeoFeed projeta, com base em dados do setor, que o Brasil ganhará 83 mil novos milionários até 2028, um aumento de 22%. Esse crescimento da base de potenciais compradores pressiona a oferta de aeronaves novas e usadas, mantém a valorização de slots em hangares e sustenta a fila de espera nas fabricantes por tempo indeterminado.

A CONTA QUE O MERCADO AINDA ESCONDE

O Catarina Aviation Show reflete o entusiasmo com uma boa dose de precisão. A feira de aviação executiva da JHSF subiu de 6 mil metros quadrados e 20 expositores em 2022, sua primeira edição, para 17 mil metros quadrados e cerca de 70 marcas nas edições mais recentes, segundo a CNN Brasil e a NeoFeed. A escala impressiona, mas o investidor de alto patrimônio precisa separar o evento da equação financeira.

O Brasil possui 2.000 helicópteros em atividade, segundo a NeoFeed. São Paulo, sozinha, abriga 400 dessas aeronaves, superando Nova York e Tóquio. Essa concentração cria um mercado robusto de manutenção e operação, mas expõe o proprietário a custos recorrentes que nem sempre aparecem na proposta comercial de aquisição. A hangaragem, a manutenção periódica, a tripulação fixa e o seguro aeronáutico compõem a lista de custos permanentes que diminuem o retorno sobre o ativo.

Para patrimônios entre R$ 2 milhões e R$ 5 milhões, a propriedade integral de uma aeronave executiva dificilmente se justifica em termos de custo-benefício. Programas de propriedade fracionada, como os oferecidos pela Avantto, abrem acesso ao transporte executivo com custo proporcional ao uso efetivo. A Avantto mantém 45 aeronaves em frota, atende mais de 450 usuários ativos e realiza aproximadamente 1.400 decolagens por mês, segundo dados da própria empresa. O modelo distribui o custo fixo entre múltiplos proprietários e elimina a ociosidade que penaliza o dono exclusivo.

QUEM CONTROLA A PISTA CONTROLA O ACESSO

José Auriemo Neto, presidente do conselho da JHSF, recebeu em 13 de maio de 2026 o prêmio Person of the Year da Brazilian Week, concedido pela Brazil-US Chamber of Commerce, segundo o Portal IN. A cerimônia aconteceu no American Museum of Natural History, em Nova York, diante de aproximadamente mil líderes empresariais, políticos e institucionais. O prêmio, concedido desde 1970, reconhece líderes que contribuíram para o fortalecimento dos laços econômicos entre Brasil e Estados Unidos.

A aviação executiva deixou de ser um serviço de transporte e se consolidou como infraestrutura de acesso. Quem controla aeroportos, FBOs, terminais privados e corredores de mobilidade entre mercados define as condições de entrada e saída para o capital UHNW. A integração entre São Paulo Catarina, Opa-Locka em Miami e Punta del Este cria uma rede que atende investidores com patrimônio relevante em três jurisdições conectadas por voos diretos, serviços financeiros dedicados e hotelaria de alto padrão.

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Renan Zanella, CFA
Renan Zanella, CFA
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