ETFs ultrapassam 1% da indústria: o que muda para o investidor UHNW

ETFs ultrapassaram 1% da indústria de fundos brasileira em 2025 com R$ 22,9 bi de captação. O que muda na engenharia tributária do investidor UHNW.

Como o salto de R$ 22,9 bilhões em captação líquida de ETFs em 2025 reorganizou a engenharia fiscal das maiores carteiras do país.

A INFLEXÃO DO CAPITAL EM 2025

Em 2025, os ETFs registraram R$ 22,9 bilhões de captação líquida no Brasil, o maior valor desde o início da série histórica da Anbima, em 2002. O produto saltou de aposta marginal para infraestrutura de portfólio em uma única década, e o último ano consolidou essa virada. Para o investidor de alto patrimônio, o dado importa porque encerra um debate antigo sobre se o veículo passivo teria espaço relevante em carteiras que historicamente preferiam estruturas exclusivas e fundos de gestão ativa.

A indústria brasileira de fundos fechou 2025 com um patrimônio líquido de R$ 10,7 trilhões, segundo a Anbima. Os ETFs ultrapassaram a marca simbólica de 1% dessa indústria pela primeira vez, com R$ 100 bilhões em ativos sob gestão. O número parece pequeno, até a comparação direta com o mercado americano, onde os ETFs já respondem por aproximadamente 37% do total da indústria de fundos (US$ 13,5 trilhões), conforme análise publicada no Brazil Journal. O espaço para crescimento brasileiro segue largo.

Para uma família com patrimônio acima de R$ 5 milhões, a leitura prática é direta. O número de investidores em ETFs saltou de 581.600 para 721.700 em 2025 segundo levantamento da B3, representando um crescimento de 24% no ano. Esse fluxo veio acompanhado de uma reorganização tributária e estrutural que muda como portfólios precisam ser construídos daqui para frente.

POR QUE O DINHEIRO MIGROU AGORA

A migração de 2025 tem três gatilhos identificáveis. O primeiro foi a mudança no tratamento dos fundos exclusivos, que passaram a sofrer come-cotas semestral e perderam parte do diferencial fiscal que sustentava sua adoção entre as carteiras maiores. Para um investidor com R$ 10 milhões alocados em uma estrutura tradicional, a mordida tributária reduzia o efeito do juro composto a cada seis meses; um custo que os ETFs eliminam por definição.

O segundo gatilho veio do nível da Selic. Com a taxa básica em patamar elevado durante a maior parte do ano, a renda fixa concentrou apetite, e os ETFs do segmento ganharam protagonismo. Os fundos de renda fixa lideraram a captação geral da indústria, com R$ 84,3 bilhões de entradas líquidas, segundo a Anbima, e os veículos listados absorveram parte expressiva desse fluxo direcionado às maiores carteiras.

O terceiro vetor foi o amadurecimento da distribuição. O modelo fee-based de assessoria, ao remunerar o profissional pela carteira do cliente em vez de pelo produto vendido, reduziu o conflito que historicamente penalizava produtos de baixo custo como ETFs. Isso liberou espaço técnico para que profissionais do mercado financeiro passassem a recomendar veículos passivos, mesmo quando a alternativa de gestão ativa pagaria uma comissão maior.

A ENGENHARIA TRIBUTÁRIA DOS ETFS DE RENDA FIXA

A vantagem fiscal dos ETFs de renda fixa é o ponto mais subestimado da migração. A alíquota de imposto de renda no segmento depende da duration média da carteira. O tempo em que o investidor manteve a cota não altera o cálculo. Para portfólios cuja carteira tenha duration superior a 720 dias, a alíquota fica em 15% desde o primeiro dia, conforme material da B3 sobre tributação. Em ETFs tradicionais de renda fixa, esse mecanismo cria uma assimetria a favor de quem precisa de liquidez, sem abrir mão da menor faixa tributária.

A ausência de come-cotas amplifica o ganho ao longo do tempo. Em fundos tradicionais de renda fixa, o “Leão” antecipa a parcela do imposto nos meses de maio e novembro, reduzindo o número de cotas e neutralizando parte do efeito do juro composto. Para uma alocação de R$ 5 milhões em renda fixa de longo prazo, evitar duas mordidas semestrais por dez anos representa centenas de milhares de reais a mais no resultado final.

Há ainda o tratamento dos cupons. Os ETFs reinvestem dividendos e cupons dentro do próprio fundo, sem fato gerador tributário a cada distribuição. O cálculo divulgado pela mídia especializada com base em dados da Itaú Asset aponta que esse mecanismo gerou diferença de até 600 pontos-base acumulados em alguns índices de renda fixa, quando comparado ao investimento direto no título correspondente. Para uma família com R$ 10 milhões, essa eficiência transforma anos de retorno em décadas.

A REORGANIZAÇÃO DA INDÚSTRIA E O AVANÇO DO INSTITUCIONAL

O perfil de quem detém ETFs no Brasil mudou de forma estrutural. Investidores institucionais responderam por 56,1% do volume sob custódia da B3 no segmento ao final de 2025, segundo levantamento publicado pelo NeoFeed, contra 33,7% das pessoas físicas. A mensagem para o cliente UHNW é que o capital bem gerido já se posicionou.

A reordenação atingiu também as gestoras. A Itaú Asset Management chegou a R$ 30 bilhões em ativos de ETFs e ultrapassou a BlackRock como maior gestora do segmento no país, com participação de mercado próxima de 28%, segundo a mesma reportagem. Para o investidor com R$ 5 milhões ou mais, esse dado importa porque sinaliza que a categoria deixou de depender exclusivamente de provedores globais e que o capital local construiu uma prateleira competitiva.

A inovação acompanhou o crescimento. A B3 listou 62 novos ETFs em 2025 e fechou o ano com mais de 500 produtos disponíveis, segundo o Relatório Anual de ETFs 2025 da B3. Entre as novidades, o ETF Connect ligou a B3 às bolsas de Shanghai e Shenzhen, criando acesso direto a índices de empresas chinesas para investidores de alto patrimônio que buscam exposição internacional sem a fricção da abertura de conta no exterior. O primeiro ETF híbrido combinando renda fixa e renda variável também estreou no período, junto com produtos temáticos voltados a inteligência artificial, energia nuclear e exposição a Bitcoin.

“A B3 e os agentes de mercado têm lançado mão de importantes iniciativas para democratizar e ampliar o acesso a diferentes alternativas de investimento. Seguimos essa mesma trilha para os ETFs, buscando acelerar o movimento ocorrido há anos nos mercados desenvolvidos.”Felipe Paiva, diretor de Relacionamento com Clientes e Pessoa Física da B3

MAS NEM TUDO SÃO FLORES

A leitura entusiasmada do crescimento esconde três pontos que merecem atenção do investidor mais sofisticado. O primeiro é o tracking error em ETFs temáticos. Produtos baseados em tendências como inteligência artificial, energia limpa ou criptomoedas negociam em mercados de baixa liquidez relativa, e a réplica do índice apresenta distorções que comem parte relevante do retorno esperado. Investidores que entram pelo apelo da tendência costumam absorver mal a volatilidade desses veículos e saem na primeira correção.

O segundo ponto é a assimetria fiscal. Ações e fundos imobiliários comprados diretamente pela pessoa física têm isenção de imposto de renda sobre proventos, contanto que dentro da faixa estabelecida pelo novo IRPFM. ETFs ficam fora dessa regra. Em uma carteira de R$ 10 milhões com componente relevante de ETFs geradores de renda (algo não recomendado, inclusive, por conta do I.R), essa assimetria pesa no retorno líquido frente à alocação direta. A escolha entre ETF e ativo subjacente passa por análise tributária prévia caso a caso, mas quando o assunto é acumulação de patrimônio, os ETFs são insuperáveis, até frente aos fundos de previdência, dependendo do caso.

O terceiro ponto é a concentração de gestoras. A liderança absoluta de poucos players no segmento gera dependência operacional e expõe o investidor a riscos de governança que não existiam quando a alocação era pulverizada entre produtos diferentes. Para a família com R$ 5 milhões alocados em ETFs, isso reforça a importância de selecionar produtos com lastro institucional sólido e de diversificar entre gestoras quando possível. A consolidação esperada para 2026 tende a aprofundar essa concentração antes de novas e independentes ganharem escala suficiente para concorrerem.

PORTFÓLIOS UHNW: ARQUITETURA EM VEZ DE MODA

Grandes gestoras de patrimônio já incorporaram ETFs como componente estrutural das carteiras-modelo dirigidas ao segmento private. A área de soluções da Itaú Asset aloca em torno de 15% das carteiras institucionais e private em ETFs, segundo reportagem do NeoFeed publicada em abril de 2026. O peso varia conforme o perfil do cliente, mas o princípio comum é tratar o veículo como bloco da arquitetura, com função tática definida.

A função muda conforme a posição na carteira UHNW. Em renda fixa de longo prazo o ETF entra pela vantagem fiscal e pelo reinvestimento automático. Em exposição internacional atua como porta de entrada de baixo custo a índices que seriam caros de replicar via BDRs. Em estratégias temáticas, exige posição limitada e prazo longo, já que a volatilidade pede paciência incompatível com uma alocação dominante.

“2025 foi um ano histórico, transformador e irreversível. 2025 vai ficar marcado como o ano de inflexão da curva de adoção de ETFs no Brasil.” — Bruno Stein, responsável pela área de fundos listados da Galápagos

O investidor precisa fazer também a leitura inversa. O produto ganhou maturidade suficiente para resistir ao ciclo, mas isso não significa que toda família UHNW precisa replicar a média do mercado. A composição correta depende de objetivos específicos de fluxo, sucessão e tolerância a risco que nenhuma alocação genérica resolve. E é aí onde o trabalho de uma consultoria ganha ainda mais valor.

VOCÊ JÁ ESTÁ SEGUINDO A PRÓXIMA ONDA?

“Mais uma vez, os fundos de renda fixa foram a locomotiva da indústria, com os investidores buscando retornos adicionais ao CDI nos fundos de crédito privado. Esse cenário tende a se manter em 2026, considerando o nível ainda elevado dos juros e uma postura mais prudente dos investidores em um ano eleitoral.” — Pedro Rudge, diretor da Anbima

A leitura institucional ajuda a separar o que é estrutural do que é cíclico no movimento dos ETFs. A engenharia tributária e a sofisticação da prateleira são conquistas que ficam, mesmo que a Selic recue. Um produto que cresce 24% em base de investidores em um único ano sempre carrega risco de virar tendência mal-absorvida. Para o investidor com um patrimônio relevante, o teste é se a entrada nos ETFs foi parte de uma reorganização tributária e estrutural deliberada da carteira, ou se acompanhou apenas o ânimo coletivo. As duas atitudes geram resultados muito diferentes ao longo de cinco a dez anos.

Sua carteira está usando ETFs como infraestrutura tributária e tática do portfólio, ou apenas seguindo a próxima onda do mercado?

Se você busca ajuda de um time qualificado e independente para te guiar nesses movimentos de mercado, entre em contato com a Zanella Wealth: zanellawealth.com.br/contato/

Renan Zanella, CFA
Renan Zanella, CFA
Artigos: 177

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *