Wealth Management · 30 de setembro de 2026

O TÉCNICO SÓCIO DO COMO 1907 E O CONFLITO DE INTERESSE

Cesc Fàbregas é técnico e sócio do Como 1907. No investimento, o conflito de interesse aparece no rebate pago a quem indica o produto mais caro.

O técnico do Como 1907 lucra quando o clube lucra, um alinhamento que falta na recomendação de investimento paga por comissão.

O TÉCNICO QUE TAMBÉM É DONO DO CLUBE

A Champions League 2026/27 começou com quatro clubes estreantes, e um deles estava na quarta divisão da Itália sete anos atrás. O Como 1907 chega à competição comandado por Cesc Fàbregas, ex-jogador do Arsenal, Chelsea e Barcelona, que entrou no clube em agosto de 2022 como atleta e, ao mesmo tempo, como acionista minoritário. Desde novembro de 2023, ele dirige o time principal, com contrato de técnico até junho de 2028.

Toda família de alto patrimônio enfrenta a questão que o Como resolveu de um jeito incomum. A pessoa que decide ou recomenda possui o incentivo financeiro alinhado com o do cliente? No Como, Fàbregas escolhe a escalação e tem voz igual à dos outros integrantes do conselho de futebol, um grupo de seis pessoas, na hora de contratar, segundo o ge. Parte do valor que essas decisões criam ou consomem cai no patrimônio do próprio técnico, e isso reduz o conflito de interesse entre quem decide e quem é dono.

O presidente do clube, Mirwan Suwarso, chama Fàbregas de diretor-executivo do futebol, o Football CEO do projeto. O percentual que o técnico detém não aparece em nenhuma das reportagens sobre o clube.

DUAS FALÊNCIAS E UM CLUBE COMPRADO POR MENOS DE €1 MILHÃO

O Como faliu pela primeira vez em dezembro de 2004. O liquidante descobriu que o ex-presidente Enrico Preziosi havia transferido ativos do clube, entre eles contratos de jogadores, para o Genoa, seu novo clube. O caso mostra o conflito entre administrador e dono no extremo, com o próprio gestor levando o valor de uma sociedade para outra.

A segunda falência veio na temporada 2016/17, e o clube recomeçou na Serie D em 2017/18. Em 2019, o grupo indonésio Djarum, dos irmãos Robert Budi e Michael Bambang Hartono, assumiu um Como que valia menos de €1 milhão, segundo a Goal.com, valor inferior ao de muitas carteiras de investidores brasileiros de alto patrimônio. O público médio girava em torno de 800 torcedores por jogo, pelas contas do ex-CEO Dennis Wise.

A trajetória seguinte, registrada na Wikipedia, levou o Como ao título da Serie C em 2020/21 e ao vice-campeonato da Serie B em 2023/24. Na Serie A, o time terminou em 10º em 2024/25 e em 4º em 2025/26, com 71 pontos, a posição que garantiu a vaga na Champions.

O Como saiu da Serie C para o 4º lugar da Serie A em seis temporadas

UM NEGÓCIO SEM META ESPORTIVA

Os donos do Como tratam o futebol como a atração principal de um negócio maior, voltado ao turismo de luxo no Lago de Como e ao público de alto patrimônio que frequenta a região. O presidente resumiu a lógica ao ge.

"Nós não temos metas esportivas. Objetivos esportivos não são mensuráveis quando você está rodando um negócio." – Mirwan Suwarso, presidente do Como 1907

Suwarso compara o clube à divisão de parques temáticos da Disney. Em entrevista à Goal.com, ele contou que a região recebia 1,6 milhão de turistas quando chegou e passou a receber 4,8 milhões cinco anos depois. O clube vende um pacote "clássico" de três noites no Lago de Como por €3.560, o equivalente a R$ 21 mil, segundo o ge, preço que por si só seleciona famílias de alto patrimônio. Ao fim da temporada 2025/26, a receita de bilheteria tinha dobrado e o merchandising crescido 300%.

O turismo no Lago de Como triplicou desde a chegada dos novos donos

Dennis Wise deixou o clube no verão de 2024, quando, segundo a Goal.com, o Como decidiu seguir a direção de Fàbregas. A Goal.com calculou o valor de mercado combinado dos jogadores em €288 milhões em setembro de 2025 e em €584,2 milhões em setembro de 2026. A meta declarada é levar o clube a uma avaliação de €1 bilhão.

O elenco do Como já vale mais do que o dobro do ano passado

O PROBLEMA QUE JENSEN E MECKLING NOMEARAM EM 1976

Michael Jensen e William Meckling publicaram em 1976 o artigo que deu nome ao custo de agência. Quando uma parte, o principal, contrata outra, o agente, para agir em seu nome, surge um custo inevitável, porque o agente nem sempre escolhe o que maximiza o bem-estar de quem o contratou. Numa família de alto patrimônio, o principal é a família, e os agentes são todos os profissionais que decidem ou recomendam algo com o dinheiro dela, do gestor de um fundo a quem indica o produto. A ProMarket resgatou a pergunta que os dois deixaram no texto.

"Como milhões de indivíduos se dispõem a entregar uma fração significativa da riqueza a organizações dirigidas por gestores com tão pouco interesse no bem-estar deles?" – Michael Jensen e William Meckling, economistas

A resposta dos autores apontou para a lei e para contratos cada vez mais sofisticados, construídos ao longo da história para reduzir esse custo.

O caso mais medido pela pesquisa acadêmica é o do gestor de fundos, e ele serve aqui como exemplo didático do mecanismo antes de chegar à carteira da família de alto patrimônio. Russel Kinnel, analista da Morningstar, agrupou fundos americanos pela faixa de investimento pessoal do gestor e calculou quantos sobreviveram e superaram os pares da categoria entre 2009 e 2014. Os gestores com mais dinheiro próprio na estratégia tiveram mais sucesso, e pesquisas posteriores da Morningstar colocaram a participação do gestor como o segundo melhor preditor de retorno, atrás apenas das taxas.

Fàbregas está no mesmo desenho. Se o clube valoriza, a fatia dele valoriza junto, e um rebaixamento o atinge como técnico e como acionista.

QUANTO VALE O DINHEIRO DO GESTOR NO PRÓPRIO FUNDO

Um estudo de dezembro de 2024 do Institute for Private Capital da Universidade da Carolina do Norte usou dados da StepStone com 1.503 fundos de participações em empresas fechadas (private equity), classe presente na carteira de muitas famílias de alto patrimônio, de 917 gestoras, das safras de 2000 a 2019, com investimentos em 38 países. Na média, o gestor coloca 3,5% do capital comprometido do fundo, fatia que o mercado chama de GP commitment.

Os 904 fundos com compromisso abaixo de 2,5% entregaram TIR média de 19,3% e múltiplo de 1,81 vez o capital investido, contra 20,6% e 1,88 vez nos 403 fundos entre 2,5% e 5% e 21,3% e 1,94 vez nos 196 acima de 5%. Do 5º ao 95º percentil de compromisso, a diferença chega a 3 pontos percentuais de TIR e 0,3 vez de múltiplo.

A TIR sobe junto com o compromisso do próprio gestor no fundo

O estudo isola, com uma amostra grande, o efeito de um único incentivo sobre o resultado de quem confia o dinheiro a outra pessoa, posição de toda família de alto patrimônio diante de quem recomenda os investimentos dela. Quando o ganho de quem decide acompanha o ganho do dono do capital, o retorno do dono sobe, até certo ponto.

QUANDO O GESTOR TEM DINHEIRO PRÓPRIO DEMAIS NO FUNDO

O mesmo estudo da Carolina do Norte encontrou uma curva em U invertido, com ponto ótimo de compromisso entre 10% e 13% do fundo, bem acima da média de 3,5%. Um gestor com dinheiro demais em jogo passa a recusar negócios arriscados de alto potencial e diversifica além do necessário, e o retorno do cotista cai.

O gestor médio compromete menos de um terço do que seria ótimo

No Como, nem a faixa de participação do técnico é conhecida, e sem ela nenhum investidor de alto patrimônio conseguiria avaliar o alinhamento. Fàbregas, que entrou no clube como sócio, descreveu a decisão à Goal.com.

"Eu não me importava com o dinheiro. Eu só queria me juntar a um projeto que me empolgasse." – Cesc Fàbregas, técnico e acionista minoritário do Como 1907

Ninguém de fora consegue dizer se o alinhamento dele está perto dos 3,5% da média ou dos 13% do teto ótimo, e o risco maior fica na conta do dono. O Como perdeu €18,5 milhões em 2022/23 e €47,7 milhões em 2023/24, segundo o ComoZero, e €105 milhões no exercício encerrado em junho de 2025, segundo a Football Italia. Os acionistas, liderados pela família Hartono, com fortuna estimada pela Forbes em US$ 43,8 bilhões, colocaram €45,5 milhões no clube em 2023/24 e outros €47 milhões nos primeiros meses de 2024/25.

O prejuízo do Como supera a receita em todos os exercícios

A UEFA limita a 70% da receita os gastos com elenco a partir de 2025/26, e o Como precisaria de um acordo de regularização, segundo o Calcio e Finanza citado pela Football Italia. Mesmo assim, o clube investiu quase €130 milhões (R$ 771,5 milhões) na última janela de transferências. Para o investidor de alto patrimônio, o caso combina um executivo com participação no resultado e um sócio controlador disposto a cobrir prejuízo por vários anos seguidos.

O REBATE QUE REMUNERA QUEM RECOMENDA O PRODUTO

Na carteira de uma família brasileira, o conflito de interesse mais próximo está em quem recomenda o produto. Quando o profissional que indica fundos, planos de previdência ou crédito privado é remunerado por comissão, ele recebe uma fatia do custo que o cliente paga, o chamado rebate. Em fundos, cerca de 0,4 ponto percentual de cada 1% de taxa de administração volta ao assessor, segundo reportagem da NeoFeed de outubro de 2024. No COE, a comissão gira em torno de 6% do valor aplicado, e de cada R$ 100 cerca de R$ 94 chegam ao investimento.

A NeoFeed estima que famílias de alto patrimônio pagam entre 0,40% e 0,60% ao ano do patrimônio total nesse tipo de repasse, de R$ 40 mil a R$ 60 mil por ano numa carteira de R$ 10 milhões. Como o repasse sai da taxa, o produto de taxa maior paga mais a quem o indica.

Sendhil Mullainathan, Markus Noeth e Antoinette Schoar mediram o efeito na prática. Em 2008, fizeram 284 visitas de clientes simulados a assessores financeiros de Boston, nos Estados Unidos. Em quase metade delas, o assessor incentivou a compra de um fundo de gestão ativa, e em só 7,5%, ou 21 visitas, recomendou um fundo de índice, mesmo quando o cliente chegava com uma carteira de custo baixo.

Esse custo extra pesa no resultado do cliente. Em 2016, Kinnel mostrou que o quinto mais barato dos fundos de ações americanos teve 62% de chance de sobreviver e superar a mediana da categoria entre 2010 e 2015, contra 20% do quinto mais caro. Nos fundos de renda fixa tributável, a proporção foi de 59% contra 17%.

Fundos mais baratos tiveram cerca de três vezes mais chance de sucesso

No Brasil, a Resolução CVM 179, de fevereiro de 2023, cita rebates e comissões como fonte de conflito de interesse na distribuição de valores mobiliários. Desde 1º de novembro de 2024, o intermediário tem de informar a remuneração no momento da ordem e enviar ao cliente um extrato trimestral com esses valores. A regra deixa de fora o investidor profissional, categoria em que se enquadram muitas famílias de alto patrimônio.

O desenho do Como aproxima o ganho do técnico do ganho do clube. Na carteira de investimentos, a remuneração paga pelo próprio cliente, modelo de uma consultoria financeira independente, cumpre esse papel. Com ela, o ganho de quem recomenda fica igual quando a recomendação é um ETF de custo baixo, e o modelo, como mostra o custo de 1% ao ano na indústria de fundos, reduziu o conflito que historicamente penalizava produtos de baixo custo como os ETFs.

QUANTO DO CUSTO DA SUA CARTEIRA REMUNERA QUEM RECOMENDOU O PRODUTO?

A direção do Como espera fechar no azul nas duas próximas temporadas, segundo o ge. O desenho de governança, com o técnico dentro do quadro de acionistas, resolve parte do conflito de interesse e deixa sem resposta a parte que só o percentual revelaria. Na carteira de investimentos, essa parte tem valor em reais e aparece na remuneração de quem recomendou cada produto. Da taxa que você paga hoje em cada aplicação, quanto volta para quem a indicou?

Se você busca ajuda de um time qualificado e independente para te guiar nesses movimentos de mercado, entre em contato com a Zanella Wealth: zanellawealth.com.br/contato/

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