A PIOR CARTEIRA DO MUNDO É SEU MELHOR INVESTIMENTO

Em 13 anos, uma carteira de 18 classes nunca liderou o ranking anual e mesmo assim terminou com o segundo melhor retorno ajustado ao risco do período.

O ranking de janeiro compara 19 classes de ativo, e a carteira diversificada nunca apareceu no topo dele em treze anos, e mesmo assim foi a melhor escolha possível.

O RANKING QUE NUNCA TRAZ BOA NOTÍCIA

Entre 2 de janeiro de 2014 e 14 de agosto de 2026, uma carteira com 18 classes de ativo, rebalanceada uma vez por ano, não terminou nenhum ano civil em primeiro lugar entre os 19 competidores testados. Também não terminou nenhum em último. A posição média dela nesses 13 anos foi a 8,46ª, com a melhor colocação em 2017, quando ficou em segundo, e a pior em 2018, quando ficou em décimo segundo. Em 10 dos 13 anos, ela apareceu entre as dez primeiras, o que descreve exatamente a experiência de quem carrega uma alocação distribuída, porque o extrato de dezembro sempre mostra alguma coisa que rendeu mais do que ela.

Para uma família com R$ 5 milhões alocados, isso significa treze conversas seguidas em que o consultor precisa explicar por que a carteira ficou atrás do ativo que apareceu no jornal. O ranking anual penaliza uma carteira distribuída por construção, porque ela nunca concentra o suficiente em uma classe para liderar a tabela de nenhum ano.

Quadrante de retorno anual de 19 opcoes de investimento entre 2014 e 2026, com a carteira diversificada destacada
Cada coluna de ano traz as 19 opções ordenadas do maior para o menor retorno daquele ano, e a carteira aparece com borda escura. As duas primeiras colunas ordenam o período inteiro, por retorno anualizado e por volatilidade. Fonte: B3, ANBIMA, testfol.io e Yahoo Finance. Elaboração: Thomáz Santos.

O QUE ACONTECE COM O CAMPEÃO NO ANO SEGUINTE

O bitcoin liderou 8 dos 13 anos analisados e ficou em último em outros 5, incluindo 2014, 2018, 2022 e 2025. As commodities lideraram 2022 com alta de 16,0% e fecharam 2023 em último, com queda de 12,3%. As ações brasileiras ficaram em último em 2015, em 2021 e em 2024. Ao todo, apenas 5 das 18 classes já lideraram algum ano do estudo, e 6 já terminaram algum ano na última posição.

O campeão de cada ano perde posição no ano seguinte com regularidade. Nas 12 transições da amostra, a classe que liderou caiu para uma posição média de 9,42 no ano seguinte, e em 6 dessas 12 transições ela foi parar na metade de baixo da tabela. Repetir a liderança aconteceu em 5 transições, todas do bitcoin em sequências curtas. A classe que terminou o ano em último fechou o seguinte na 7,7ª posição média, e em 8 dessas 12 transições ela apareceu na metade de cima da tabela. O investidor com R$ 10 milhões que reorganiza a alocação em janeiro, segundo o vencedor de dezembro, compra uma posição que, historicamente, tem mais chance de terminar o ano seguinte na metade inferior do que de repetir o primeiro lugar.

O QUE APARECE QUANDO OLHAMOS O ACUMULADO

Somados os 3.178 pregões da janela, a carteira acumulou 607,87%, o equivalente a 16,79% ao ano. O CDI no mesmo período entregou 231,59%, ou 9,98% ao ano. A carteira terminou o período mais de três capitais iniciais à frente do CDI, ao longo de treze anos em que nunca liderou o ranking anual.

Em retorno anualizado, essa carteira ficou em quarto lugar entre os 19 competidores, atrás apenas de bitcoin, ações americanas e ouro. Ela fechou 12 dos 13 anos no positivo e superou o CDI em 8 deles. O melhor ano foi 2017, com alta de 45,29%, e o único negativo foi 2022, com queda de 13,79%. Para o patrimônio de R$ 1 milhão que entrou em 2014 e ficou parado, a conta termina em R$ 7,08 milhões, contra R$ 3,32 milhões de quem deixou tudo no CDI.

O PREÇO COBRADO PELAS TRÊS QUE RENDERAM MAIS

O bitcoin entregou 50,72% ao ano e 17.524,04% acumulados, três vezes o retorno anualizado da carteira. A volatilidade dele foi de 67,62%, quase seis vezes a da carteira, e a maior queda entre topo e fundo chegou a 79,58%. As ações americanas renderam 21,35% ao ano com volatilidade de 20,14% e perda máxima de 30,49%. O ouro rendeu 17,69% ao ano com volatilidade de 19,94% e perda máxima de 27,45%.

A carteira teve perda máxima de 17,91%, acumulada entre 27 de dezembro de 2021 e 11 de outubro de 2022. Uma queda de 79,58% sobre R$ 10 milhões significa ver R$ 7,96 milhões saírem do balanço familiar antes de qualquer recuperação. A distribuição entre 18 classes manteve a maior perda do período em 17,91%, patamar que um investidor com horizonte longo consegue atravessar sem liquidar a posição no fundo da queda.

NENHUMA CLASSE RENDEU MAIS OSCILANDO MENOS

Quatro classes oscilaram menos que a carteira no período. O CDI teve volatilidade de 0,24%, o IRF-M teve 3,72%, o IMA-B teve 7,17% e o IFIX teve 7,90%, contra 11,39% da carteira. As quatro renderam, respectivamente, 9,98%, 10,60%, 10,92% e 8,35% ao ano, todas abaixo dos 16,79% da carteira. Nenhuma das 18 classes individuais conseguiu render mais que a carteira e oscilar menos que ela ao mesmo tempo.

Essa combinação aparece no índice de Sharpe, que mede quanto retorno acima do CDI cada ponto de oscilação comprou. A carteira registrou 0,5985, segundo lugar entre os 19 competidores, a 0,004 do bitcoin, que ficou em primeiro com 0,6025. As ações americanas ficaram em terceiro com 0,5646 e o ouro em quarto com 0,3869. Para o investidor com patrimônio entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões, essa é a métrica que descreve a carteira possível de carregar por uma década inteira, porque ela pondera o retorno pela oscilação que ele precisa tolerar no caminho.

O QUE ESSA SIMULAÇÃO NÃO PAGA

A simulação não inclui custo de transação e não desconta imposto em nenhuma etapa. O rebalanceamento acontece no último pregão de cada ano, com preços de fechamento e execução perfeita, o que nenhuma carteira reproduz integralmente. A janela também favorece o resultado, porque começa em 2014, pega o dólar subindo contra o real e inclui o bitcoin em quase todo o seu histórico investível.

Com 2,1% de peso alvo, o bitcoin responde por parte relevante do resultado final. Num patrimônio de R$ 10 milhões, essa fatia equivale a R$ 210 mil. A mesma carteira, recalculada sem ela, entrega 13,67% ao ano, índice de Sharpe de 0,3447 e volatilidade de 10,72%. A versão sem bitcoin continua entregando mais que as quatro classes menos voláteis, fica 3,7 pontos percentuais ao ano acima do CDI e tem perda máxima de 16,70%. Mesmo nessa versão, nenhuma das classes individuais rendeu mais que a carteira oscilando menos que ela.

Em 2022, a carteira caiu 13,79% e nenhuma combinação de classes evitou o ano negativo. O que a distribuição mudou foi o tamanho da queda, já que no mesmo ano os títulos longos do Tesouro americano caíram 35,71%, os REITs americanos caíram 31,04% e as ações americanas caíram 23,43%. Se você monta a carteira pelo ranking de dezembro, compra concentração no ativo que acabou de subir, e em 6 das 12 transições da amostra essa escolha levou o investidor à metade de baixo da tabela.

O CONTRATO QUE O INVESTIDOR ASSINA

O investidor que diversifica aceita treze janeiros de meio de tabela e recebe, ao fim de doze anos e meio, o quarto melhor retorno e o segundo melhor retorno ajustado ao risco entre os 19 competidores. O investidor que trocou a carteira pelo campeão do ano anterior em janeiro de 2023 comprou commodities e colheu uma queda de 12,3% no mesmo ano.

Quantos anos de meio de tabela o seu processo de decisão aguenta antes de trocar a carteira inteira pelo vencedor do ano passado?

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Renan Zanella, CFA
Renan Zanella, CFA
Artigos: 194

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