Março de 1990. O Brasil estava sofrendo com uma hiperinflação desenfreada, com o IPCA atingindo a marca assustadora de 80% ao mês. A economia estava bastante fragilizada, e a população sofria com a perda constante do poder de compra. Foi nesse cenário de crise profunda que o presidente Fernando Collor de Mello, recém-empossado, lançou o Plano Collor, um pacote de medidas econômicas radicais que prometia estabilizar o país. Contudo, o plano ficou famoso infelizmente pelo confisco das poupanças; um evento traumático que completou 35 anos no último dia 16, e cujas lições ainda precisam ser lembradas.
A HIPERINFLAÇÃO E O CLAMOR POR MUDANÇAS
O Brasil vinha de uma década perdida, marcada por sucessivos planos econômicos que fracassaram em conter a inflação. A indexação generalizada da economia – em que preços, salários e contratos eram automaticamente reajustados – alimentava a espiral inflacionária. A população vivia em um estado de constante apreensão, com os preços subindo diariamente e a sensação de que o dinheiro perdia valor a cada minuto. Era um cenário insustentável, que exigia medidas urgentes.
ORIGEM DA IDEIA
Em entrevista concedida pelo Collor, o ex-presidente declarou que a reunião que consolidou a ideia de que o confisco deveria ser implementado foi durante uma conversa com o André Lara Rezende, nome muito ouvido até os dias de hoje, o Daniel Dantas e o Mário Henrique Simonsen:
“…até que o André Lara Resende chegou e deu a seguinte sugestão ‘É professor (Fernando Collor), mas essa questão da liquidez, tem que dar um bloqueio nela’.
“Aí o Daniel Dantas replicou do outro lado:’Mas o que é isso, André? Você está querendo cumprimentar as pessoas com o chapéu alheio? Isso é um absurdo, não se pode pensar numa coisa como essa’.
“E aí o André Lara Resende volta para o Mário Henrique Simonsen e diz: ‘Professor, essa pode não ser uma ideia das melhores, mas é a saída, não é?’.
“Aí o Mário Henrique Simonsen falou: ‘Tecnicamente, é a saída, mas, politicamente, isso é inviável’.
“…Foi com essa declaração do Mário Henrique Simonsen e com essa decisão dele, que eu disse: ‘Bom, ele está dizendo que é politicamente inviável, então, politicamente, cabe a mim torná-la viável’.”
UMA INTERVENÇÃO RADICAL
Fernando Collor, eleito com um discurso de renovação e combate à corrupção, assumiu a presidência em 15 de março de 1990. No dia seguinte, surpreendendo a todos, anunciou o Plano Collor. O plano era um choque, uma tentativa de romper com o passado e estabilizar a economia de forma abrupta. As medidas, ousadas e polêmicas, incluíam:
- Confisco: A medida mais controversa, e que se tornou símbolo do plano, foi o bloqueio de 80% dos ativos financeiros acima de cinquenta mil cruzeiros novos (o equivalente a cerca de R$12.000 em valores atuais). Essa medida atingiu contas correntes, poupanças e aplicações financeiras, confiscando um montante estimado de impressionantes $100.000.000.000 (cem bilhões de dólares).
- Troca da Moeda: A moeda, mais uma vez, mudava de nome: o cruzado novo era substituído pelo cruzeiro (sem corte de zeros).
- Abertura comercial para aumentar a concorrência com produtos internacionais
- Privatizações de estatais para diminuir o tamanho do Estado.
O CONFISCO E O CAOS SOCIAL
O anúncio do confisco caiu como uma bomba sobre a população. A medida, que visava reduzir drasticamente a quantidade de dinheiro em circulação para conter a inflação, gerou pânico e desespero. Milhões de brasileiros correram aos bancos, tentando sacar o pouco que restava em suas contas. Filas quilométricas se formaram, e muitos bancos ficaram sem dinheiro para atender à demanda. O confisco teve um impacto devastador na vida de milhões de pessoas.
Empresas perderam capital de giro, levando a falências e demissões em massa. Aposentados e pequenos empresários viram suas economias desaparecerem, sem ter como pagar contas ou salários. Relatos de suicídios e de um aumento de doenças relacionadas ao estresse se multiplicaram. A medida, que deveria trazer estabilidade, gerou um caos social sem precedentes.
A DEVOLUÇÃO E A PERDA DO PODER DE COMPRA
O governo prometeu devolver os valores confiscados em 18 meses, em 12 parcelas mensais, com correção monetária. No entanto, a correção pela OTN (Obrigação do Tesouro Nacional) não acompanhou a hiperinflação, resultando em perdas significativas para os poupadores.
Na prática, quem tinha o equivalente a $1.200 bloqueados em março de 1990 recebeu, ao final do processo de devolução, um valor equivalente a apenas $240 – uma perda de cerca de 80%. A hiperinflação, a indexação inadequada e a demora na restituição corroeram o valor do dinheiro confiscado.
Até 2023, mais de 470 mil pessoas ainda tinham processos judiciais, na tentativa de reaver parte do que a inflação tomou do seu poder de compra.
AS CONSEQUÊNCIAS DE UM PLANO FRACASSADO
O Plano Collor teve um impacto profundo no país. Algumas das principais consequências foram:
- Crise Política: O desgaste do governo Collor, agravado pelo confisco, acelerou o processo de impeachment em 1992.
- Judicialização: Milhares de brasileiros entraram na Justiça buscando indenizações pelas perdas. Muitos processos se arrastam até hoje.
- Desconfiança: O episódio deixou como herança uma marca de insegurança dos brasileiros em relação a novas medidas econômicas.
LIÇÕES PARA O FUTURO
O Plano Collor, apesar de seu fracasso, deixou lições importantes para o Brasil. A principal delas é que medidas econômicas radicais, sem planejamento adequado, diálogo e transparência, podem ter consequências desastrosas. A confiança da população nas instituições é fundamental para o sucesso de qualquer plano econômico. Além disso, o confisco da poupança demonstrou a importância de proteger o patrimônio, investindo fora do país.
O Plano Real, implementado anos depois, em 1994, trilhou um caminho diferente. Com medidas graduais, desindexação da economia e ancoragem cambial, o Plano Real conseguiu, finalmente, estabilizar a moeda e controlar a inflação.
Conclusão:
O Plano Collor é um capítulo sombrio da história brasileira, um lembrete dos riscos de medidas econômicas extremas e da importância da confiança, da transparência e do respeito aos direitos dos cidadãos. Trinta e cinco anos depois, o trauma do confisco ainda ecoa no coração daqueles que sofreram as consequências, tanto financeiras quanto emocionais e psicológicas, e as lições aprendidas devem servir de guia para que erros semelhantes não se repitam. Combater a inflação é essencial, mas do jeito certo. Afinal de contas, enquanto o verdadeiro culpado por ela não for combatido (o descontrole dos gastos públicos), dificilmente teremos uma moeda que não perca poder de compra ao longo dos anos.